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O desporto em Portugal

Portugal não tem uma verdadeira cultura desportiva, mas sim uma cultura que se pode classificar de clubística. Poderiam ser enumeradas diversas razões para esta realidade, contudo, esse não é o meu objetivo: preocupa-me, por outro lado, entender quem é o responsável pela manutenção (perpetuação) deste status quo. No meu entender, este nosso fado clubístico, tão ardentemente alimentado pelos próprios clubes, resulta de uma permanente e profunda ausência de verdadeiras políticas desportivas de âmbito nacional – atente-se, desde logo, à desvalorização do Desporto na campanha para as últimas eleições legislativas, e na quase inexistência de referências a ele nos programas de cada um dos partidos. Por outro lado, Portugal é essencialmente um país de futebol, e os adeptos continuam a dar mais importância às vitórias e aos sucessos competitivos dos seus clubes (venham elas e eles como vierem), a curto prazo, do que ao espetáculo propriamente dito. Este sentimento, praticamente generalizado, é simultaneamente causa e efeito da cultura desportiva que temos, contaminando os mais jovens. Esta predominância do futebol, e a cultura que lhe está subjacente, reflete-se no desporto em geral, desvirtuando os princípios que devem norteá-lo, como sejam, o espírito desportivo, a camaradagem, o respeito pelo adversário, o trabalho em equipa e a ética desportiva. O desporto para crianças e jovens é organizado e orientado tendo como modelo a prática desportiva dos adultos, criando um efeito de contágio dos vícios próprios destes nos mais jovens. É mais importante o clube que se segue do que o desporto em si. Considero que a ausência de medidas políticas de sinergia entre a educação e o desporto conduziram à atual situação que vivemos. A prática de desporto, seja em que idade for, implica um conjunto de benefícios, não só a nível físico, como psicológico e social. A nível físico, não temos dúvidas de que é fundamental para a manutenção da saúde. A nível psicológico, ajuda a elevar a autoestima dos praticantes, pois desenvolve um conjunto de habilidades que antes não se possuíam. A nível social, o desporto assume-se como um lugar privilegiado para se realizarem laços sociais de amizade, dando a sensação de pertença a um grupo. No entanto, esta prática tem de ser efetuada com o respeito pelos adversários e pelo trabalho de quem toma as decisões, sem atritos nem discussões, em suma, com fairplay. Os maus exemplos que nos chegam do futebol, e que se têm refletido, de certa forma, em muitas outras modalidades, têm de ser estancados, pois só desta forma conseguiremos a prática de um desporto saudável em todas as vertentes, sendo certo que ninguém se pode alhear (Governos, Instituições, pais, atletas, etc.) da procura de soluções para uma nova cultura desportiva em Portugal.
Autor: João Gomes
DM

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3 março 2022