Anecessidade de ter de se levantar a horas certas para ir trabalhar ou outras obrigações sociais tornou o uso do despertador um dos costumes mais generalizados da nossa cultura, tão generalizado que, na prática, funciona como um marcador do relógio biológico. Mas, apesar da importância social que adquiriu, não podemos deixar de dizer que é um recurso ambivalente: traz vantagens, mas traz também desvantagens. Traz vantagens porque a pessoa desliga da preocupação de ter de acordar a determinada hora e pode deitar-se com mais tranquilidade, o que favorece o adormecer; mas, traz também desvantagens porque este acordar brusco é uma agressão ao ritmo do processo biológico do despertar, de que ainda não sabemos bem as consequências em termos de saúde. É por ser sentido como uma agressão ao ritmo do processo biológico do despertar que muitos vão instintivamente com a mão ao botão de pausa do despertador para o parar, apesar de se ter suavizado muito o som do despertador para não ser tão agressivo. Ouvir o som do despertar e dar um pulo da cama para fora pode muito ser engraçado para um robot, mas não para um ser humano.
1. Se é sentido como uma agressão ao ritmo do processo de despertar, quer dizer que o violenta e pode indiciar também que as pessoas que habitualmente assim reagem têm um relógio biológico desfasado dessa hora de acordar: precisam de mais tempo de sono. Até há pouco tempo, dizia-se que isso era preguiça, mas a realidade pode bem ser outra: o relógio biológico não é igual em todas as pessoas, isto é, não funciona do mesmo modo em todas as pessoas. Admito que a maioria das pessoas goste de adormecer cedo e levantar cedo: são como as cotovias que adormecem com o escurecer e cantam mal a aurora desponta. Têm sorte… talvez, por isso, não lhes custará tanto usar o despertador, sentindo-se até mais seguros e tranquilos e mais confiantes de acordar a hora certa, o que é importante para adormecerem melhor e terem um sono mais repousado. Para além disso, o despertador pode até funcionar como treino de adaptação e ajudar a beneficiar do contacto com a luz matinal, que o povo lapidou no conhecido ditado “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer”.
Só que há outras pessoas que têm dificuldade em funcionar assim, sentem-se mais despertas no princípio da noite e trabalham melhor nessas horas; mas, de manhã, precisam de se levantar mais tarde. São como os mochos, funcionam melhor pelo princípio da noite dentro, mas depois não conseguem levantar-se tão cedo como as cotovias. Obrigar uma pessoa destas a levantar-se habitualmente cedo é como obrigá-la a sofrer permanentemente de jet lag (mudança brusca de fusos horários que pode provocar disritmia circadiana, desregular a adaptação do ritmo biológico ao meio ambiente, interferir com os ritmos de produção de melatonina e provocar noites mal dormidas ou mesmo insónias, diminuir a capacidade de concentração, aumentar o cansaço e a fadiga, causar problemas no sistema digestivo, fazer aumentar a produção de cortisol, uma hormona stressante que, muito tempo repetida e interferindo com o ritmo alterado da melatonina, pode provocar alterações tumorais).
2. Isto não quer dizer que o ritmo biológico não se possa ir adaptando ao longo da vida; mas, ir-se adaptando é uma coisa, forçar o ritmo do relógio biológico a reprogramar-se é outra coisa diferente. Há diferenças que já nascem connosco. Nos bebés, é fácil ver a evolução da adaptação ao ritmo circadiano: alguns, a princípio, dão noites mal dormidas por causa disso e podem levar meses até conseguirem sincronizar o seu relógio biológico com o ciclo circadiano; outros nem tanto, adaptam-se mais depressa, são os tais bebés que dão noites sossegadinhas. Na adolescência, o relógio biológico sofre um atraso e, por isso, os adolescentes tendem a deitar-se mais tarde e fazer as conhecidas noitadas. Custa-lhes levantar cedo: obrigá-los a acordar mais cedo é uma violência que afecta o seu bem-estar e o rendimento escolar (é o velho problema dos horários escolares muito cedo). É, por isso, aconselhável ajudá-los a fazer por manter horários dentro do ritmo circadiano.
3. Quer isto dizer que obrigar alguém a acordar mais cedo do que o seu relógio biológico determina pode interferir com o seu bem-estar geral, porque os vários órgãos do corpo têm de estar sincronizados com o seu relógio biológico central. Pessoalmente, nunca me dei bem com o uso do despertador. Ser acordado dessa maneira abrupta deixava-me mal disposto para o dia todo. Preferia acordar com o meu relógio biológico: consciencializava a hora a que queria acordar e acordava mesmo. Só que, como diz o povo, não há bela sem senão: a preocupação de acordar ficava latente e, com o passar do tempo, foram-se manifestando os estragos de stress que ela silenciosamente ia causando. São os custos da civilização massiva…
(Nota: o autor não escreve de acordo com o chamado Acordo Ortográfico)
Autor:
O despertador
DM
29 outubro 2017