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O cristianismo actual à luz do estudo crítico das suas origens – 2

Neste texto, já podemos citar o livro: «De Jerusalén a Roma – La marginalidad del cristianismo de los orígenes» - Rafael Aguirre (ed.) - Editorial Verbo Divino, 2021. Referíamos no texto anterior que o cristianismo das origens era eminentemente laical e participativo, com comunidades cristãs vivas, corresponsáveis e com um elevado grau de autogestão, mas sempre em comunhão com o conjunto da Igreja. Isso implicava: «uma maturidade na fé em diversas dimensões: transmissão da fé, formação dos membros, partilha de bens, ajuda aos mais débeis, compromisso para a transformação da sociedade e uma notável capacidade de autogestão celebrativa da fé em todas as suas expressões». (p. 246) A forma como há séculos está configurado o ministério ordenado na Igreja Católica faz com que haja comunidades cristãs que não podem participar plenamente da eucaristia a que têm direito, por não haver ministros ordenados que as sirvam. Nas origens, tal ministério da presidência era exercido por homens e mulheres, e não exigia o celibato. Pensemos em Pedro, que era casado, e em Júnia, que era apóstola: «Saudai Andrónico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, ilustres entre os Apóstolos e que, inclusive, se tornaram cristãos antes de mim» (Rom 16, 7). O ministério da presidência (proistamenos, Rom 12, 8) pode ser exercido por homens e mulheres, tal como aconteceu nas origens. «O carácter apostólico da Igreja afecta a toda ela e não se pode legitimar em seu nome a existência de um grupo de homens, separado do resto dos seguidores de Jesus e com poderes sobre eles. (…) no cristianismo primitivo, existiu o ministério de apóstolo, aplicado a diversas pessoas, sobretudo missionários itinerantes, entre eles Paulo». (p, 247) «Na origem, houve uma experiência extraordinária em volta de Jesus, da sua pessoa e da sua vida, bem como dos acontecimentos pascais. Esta experiência intensa e emocional, pessoal e colectiva, está na origem de um movimento que permaneceu após a morte de Jesus e com grande força expansiva». (p. 248) Dois eram os ritos fundamentais em que se fazia memória e se actualizava a experiência do passado com Jesus: o baptismo, rito de iniciação; e a eucaristia, comida fraterna, rito de pertença. Estes grupos: «foram formulando em doutrinas as suas experiências e crenças. Estas doutrinas faziam-se mais necessárias à medida que os grupos eram mais numerosos e complexos etnicamente. As doutrinas eram importantes, porém, não estão no princípio, mas no fim. Fazer-se cristão não consistia em aceitar um conjunto doutrinal, mas em participar numa experiência comunitária, que se actualizava no rito de uma mesa fraternalmente partilhada, que se exprimia numa transformação pessoal e social, isto é, numa nova forma de vida. O corpo doutrinal foi surgindo para dar coesão e explicar todos estes elementos». (p. 248) O verdadeiramente decisivo é que, na origem da vida cristã e daquilo que a sustenta, está uma experiência religiosa, que tem como característica peculiar: ser um encontro com Jesus, que abre para o mistério de Deus e do seu reino na história. É uma experiência de alegria e de paz, com uma especial atenção à história e à responsabilidade perante ela. As igrejas cristãs deveriam ser lugares em que se cultivasse, antes de tudo, esta experiência religiosa. (Cf. P. 249) «A desafeição em relação à Igreja, que hoje se sente em muitos lugares, sobretudo na Europa e América do Norte, não quer dizer que nesta sociedade tão secularizada não existe um anelo e necessidade de espiritualidade, que se exprime de muitas maneiras, mas à margem do cristianismo institucionalizado. (…) Há uma busca da interioridade, da paz e do encontro com o próprio eu, como salvação no meio de uma sociedade ruidosa e atropelada. É um tipo de espiritualidade intimista, com versões do cristianismo, por exemplo, com interpretações espiritualistas e desencarnadas dos evangelhos, que mais não são que uma versão actual do gnosticismo, que é uma forma de cristianismo presente nas origens, que goza de um indubitável atractivo e reaparece com frequência na história». (Cf. p. 249) Não é por mera coincidência que o Papa Francisco tanto tem alertado contra os perigos do gnosticismo e do pelagianismo em certas práticas «religiosas» dos nossos dias. Continua
Autor: Carlos Nuno Vaz
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5 março 2022