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O cristianismo actual à luz do estudo crítico das origens – 3

Nas suas origens, o cristianismo, no meio de grandes dificuldades, proclamou bem alto que «a genuína experiência religiosa passa por Jesus, crucificado e ressuscitado, que abre a um encontro com Deus essencialmente vinculado ao compromisso na história». Daí que: «cultivar esta experiência seja tarefa fundamental das igrejas cristãs, que não podem aparecer primariamente como instituições cultuais, e nem sequer como sociedades de beneficência». (De Jerusalén a Roma, o.c, pp. 249-250).

É um facto que a «dimensão ritual da fé cristã entra em choque com características muito marcantes da cultura contemporânea, pois existe uma notável incapacidade para captar e valorizar o simbólico, aspecto essencial do rito. Acresce que a cultura individualista e narcisista que nos rodeia tende a não valorizar umas acções que transmitem e representam os valores que sustêm uma comunidade».

Os autores da publicação que vimos comentando sustentam que urge rever profundamente a celebração cristã da eucaristia na Igreja Católica. Com efeito, nas origens, as comidas eucarísticas eram a actualização da experiência básica do encontro com Jesus, crucificado e ressuscitado e tinham repercussões existenciais. Por isso, advogam que se deveria: «rever muito a sério a celebração cristã deste rito na Igreja católica. Teria que ser muito mais participativo. E acham insustentável que, quanto mais solene é a celebração, maior é o protagonismo clerical e menor o do povo. «Deveriam ser eliminados das celebrações eucarísticas gestos fossilizados, vestes arcaicas e resíduos de cerimoniais palacianos. Muitas das orações do ritual reflectem uma teologia amplamente ultrapassada e são inaceitáveis para gente socializada na cultura contemporânea». (p. 250)

No opúsculo: «Apresentação do Missal Romano na terceira edição», do Secretariado Nacional de Liturgia, o cónego João da Silva Peixoto diz isto de uma outra maneira, se bem que o novo missal não é ainda tão revolucionário como o que corresponderia ao almejado pelos autores que vimos citando. Todavia, afirma-se: «A fé, que não muda, é desafiada a dizer-se sempre de modo novo na surpresa de um Pentecostes em que o elenco de línguas e culturas continua em aberto. Há que encontrar termos novos para dizer o mesmo e para dizê-lo melhor. Por isso, nunca um missal será definitivo». (p. 53) Reconhece-se ainda a enorme falta de «uma edição capaz e integral da Sagrada Escritura que possa ser declarada oficial – vulgata – para uso na Liturgia, Catequese e Magistério». (Ib.)

É preciso superar uma visão «excessivamente racionalista e ideológica do cristianismo, ainda muito preponderante nas suas formas institucionais». (De Jerusalén a Roma, p. 251)

De destacar ainda que, no princípio de uma adesão a Cristo não está uma doutrina nem é ela o mais importante, mas a incorporação a uma comunidade que se fazia pela introdução numa experiência religiosa que implicava igualmente uma transformação pessoal. O elemento doutrinal é necessário, mas há que ter em conta que está muito condicionado culturalmente. Aliás, a dimensão doutrinal é a mais controlada pela autoridade e a que mais preponderância vai adquirindo nas comunidades. Isso contribuiu para que o elemento doutrinal se exacerbasse e se formulasse de forma excessivamente rígida, erigindo-se em critério decisivo de fidelidade à fé, ficando a sua interpretação, habitualmente, nas mãos de um organismo que, culturalmente, é de horizonte clerical e estreitamente limitado. (pp. 251 e 252)

«É necessário que a fé se incarne culturalmente para que seja relevante no decorrer dos tempos e em lugares diversos». (Ib. P. 252)

«Há formulações tradicionais que se devem respeitar e conservar, mas que não podemos limitar-nos a repeti-las, mas também há formulações de outros tempos que devem ser superadas, porque se tornam inaceitáveis nos nossos dias». E isto não é outra coisa que aceitar a lógica da incarnação». «A fidelidade ao recebido exige ser actualizado para que se torne significativo no presente… porque uma coisa é “o escândalo da cruz”, que não devemos ocultar, ao mesmo tempo que reivindicamos a sua sabedoria profunda, e outra coisa é o escândalo de formulações ininteligíveis ou que atentam contra valores humanos fundamentais». (p. 252)

Para esta árdua tarefa da inculturação doutrinal, é preciso: «liberdade, árdua dedicação, partir da diversidade de experiências cristãs, conhecimento da tradição, sobretudo das origens, plasmados na Bíblia e diálogo com outras teologias». (p. 253)


Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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19 março 2022