twitter

O coronavírus e a responsabilidade individual e coletiva

Alguém imaginaria, debaixo do fogo de artificio e da celebração do ano novo, há escassos dois meses e meio, que estaríamos hoje nesta situação? A Igreja, pela mão do nosso Arcebispo Primaz, D. Jorge Ortiga, deu um sinal importantíssimo de contenção quando suspendeu a realização de missas presenciais e instou os católicos a não participar em alguma que possa ocorrer, contrariando as suas instruções. D. Jorge Ortiga, nas missas on line transmitidas este domingo e segunda feira, instou também a atitudes responsáveis, sem alarmismos mas sem subestimação da gravidade da situação, devendo todos acolher as instruções das autoridades, sendo obrigação esclarecer mesmo “quem não quer cumprir porque aqui não há vontade pessoal, é o bem da Humanidade que está em causa …” . Apesar do adequado comportamento da maior parte da população portuguesa face à doença, ainda há um número significativo de pessoas com uma atitude de desleixo e displicência face a ela. Parece que alguns, só com evitáveis contágios e mortes de familiares e amigos é que passarão a ter, sob lágrimas de sangue e dor, o comportamento adequado. O Estado de Emergência só se justifica para impedir estes inconscientes a andarem na rua sem estrita necessidade. Na segunda feira, quando calçava luvas para meter gasóleo num posto de combustível sem papel, dizia-me um senhor mais idoso do carro à minha frente, com ar de desdém: “luvas para meter gasolina no carro?”. Pelo ar propositadamente grave da minha resposta, espero que o tenha sensibilizado para a importância da situação que menosprezava. Se é verdade que haverá sempre contágios e mortes, também é verdade que o nosso comportamento poderá aumentar ou diminuir o seu grau de probabilidade. Num relevante artigo do Observador no último domingo, o físico e matemático Jorge Buescu, demonstrava que em Portugal ocorre, por dia, um consideravelmente aumento maior de novos casos face à Alemanha, Itália, França e Espanha. Igualmente preocupante, segundo consta desse artigo, é o número de camas com ventiladores que Portugal possuiu e o previsível número de doentes graves que delas necessitem. “Cancelem … cancelem tudo, se ficarmos em casa estamos a atrasar o Corona Vírus, isto é uma questão de vida ou de morte!”, disse no Parlamento o deputado Ricardo Batista Leite numa intervenção com grande sentido nacional. Repito mais uma vez, até à exaustão: a principal atitude para debelar esta doença é o nosso comportamento individual e a responsabilidade coletiva com que enfrentámos este problema. O fundamental é seguirmos a opinião dos técnicos, ouvir quem sabe, adotarmos os comportamentos que os mais entendidos dizem para adotarmos. É preferível pecar por excesso do que pecar por defeito! Tenho a certeza que a Nação Portuguesa irá ultrapassar este grave problema mundial, como vencemos outros no passado, mas há comportamentos que temos de evitar. Não é possível que muita gente, egoisticamente, compre mais do que o necessário, impossibilitando a compra de bens essenciais por parte de outras pessoas em igual ou pior situação. Os jovens, após terem as aulas suspensas, não podem conviver noutro lugar. Os pais devem induzir a uma separação física temporária dos namoros dos filhos, sempre que a maturidade destes não os faça distanciar mais de 1 metro. Aliás esta atitude deverá ser seguida pelos pais em casa. Os mais jovens e saudáveis, em princípio menos afetados por este vírus, devem adotar os comportamentos adequados sob pena de o transmitirem e contribuírem para a sobrecarga dos serviços de saúde. É difícil? É certamente! No entanto é melhor evitar certos comportamentos agora para poder voltar a tê-los depois. Macau, o maior caso com sucesso conhecido – graças à determinação de todos e também devido às suas caraterísticas especiais – não cruza os braços porque sabe que basta um descuido para o vírus ressurgir. Cancelemos tudo agora, para podermos ter tudo de volta depois. E vamos ter!
Autor: Joaquim Barbosa
DM

DM

18 março 2020