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O céu é o inferno

Há quem grite desesperadamente para se fecharem os céus da Ucrânia. Os céus estão cada vez mais manchados de sangue inocente. Lá em baixo, sobrevive-se, luta-se pela vida, a cada momento que passa, sem poder respirar ar puro e desfrutar de um céu azul, com a angústia da morte tão próxima, a ouvir as sirenes de aviso ou dos bombeiros a acelerar para resgatar os sobreviventes. Ainda assim, há pessoas que tentam cumprir os seus sonhos. Ainda existe a esperança que a guerra acabe rapidamente e que tudo se encaminhe para uma recuperação de uma identidade, do orgulho de um povo livre, de uma bandeira. O mundo nunca mais será o mesmo. A história faz-se do dia a dia, de momentos épicos ou tristes. Mas a partir desta agressão nunca mais as almas serão as mesmas. A liberdade é um bem extraordinariamente importante para todos os povos. A expressão livre, crítica, aberta, é um bem riquíssimo da criatividade e do progresso. O mesmo céu que nos une, é também o mesmo espaço que permite uma agressão tão bárbara.

A atleta ucraniana Mahuchick foi protagonista de uma história que deveria ser uma enorme lição ao mundo. Fugiu entre as bombas, viajou milhares de quilómetros, entre escombros e desespero, dirigindo-se até Belgrado, na Sérvia, aos Campeonatos Mundiais de Atletismo em Pista Coberta. A ucraniana, de 20 anos, alimentada pelo mesmo sonho do que um qualquer atleta, participou no salto em altura e viu, orgulhosamente, a bandeira do seu país subir mais alto do que qualquer outra. Subir ao mais alto posto do pódio, nunca teve tanta importância e relevo para uma nação. No momento da vitória dedicou a medalha de ouro aos seus compatriotas, ao seu povo, ao seu exército. A coragem revela-se nas intenções e principalmente nas ações. Esta conquista tão simbólica e comovente é a prova de que o Desporto é uma proposta simples para algo tão intenso como a determinação e a paixão. Quando assisti ao momento, não pensei em mais nada do que no orgulho, ainda que ferido e devastado, de uma atleta que cumpre o seu sonho, enquanto assiste impotente ao desmoronar de tantos sonhos dos seus compatriotas. No entanto, com esta vitória, revestiu o coração, de todos os ucranianos e a todos que acreditam na paz e na concórdia, a ouro.

Também, a portuguesa Auriol Dongmo, teceu uma história nobre na mesma competição. A atleta de origem camaronesa alcançou um resultado incrível, que representa a melhor marca mundial do ano e constitui ao mesmo tempo um novo recorde nacional absoluto.

Continuo, com estes e outros episódios, a acreditar que o Desporto pode mudar as nossas vidas. As pessoas vivem extremamente pressionadas pelo sucesso, pelo dinheiro, mas os nobres valores que envolvem o Desporto podem criar esperança, alimentar os sonhos e marcam a diferença. A riqueza do ser humano ultrapassa largamente o lado material. Ainda há esperança de poder ver livremente o céu e sonhar!


Autor: Carlos Dias
DM

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25 março 2022