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O “Caminho” de uns e…outros.

Depois de dois anos de interregno, devido à COVID, a escola secundária de Vila Verde (ESVV) retoma uma das suas atividades identitárias – O Caminho de Santiago. Importa perceber quando começou esta aventura de meter pés ao caminho por parte de professores e finalistas da ESVV. Foi já no longínquo 2009 que um professor de filosofia lançou o desafio: “E se levássemos os nossos finalistas a pé até Santiago?”. Eu, “pecador” me confesso, questionei-me interiormente: ir a pé a Santiago? Porquê, e para quê? Depois de conversar com o colega e ir ao Dr. Google, comecei a perceber que talvez aquela atividade (para mim) sem sentido, fizesse algum sentido. Treze anos depois, não só lhe continuo a encontrar justificação como a considero, cada vez mais, fundamental e com todo o sentido para os alunos melhor se conhecerem e a quem os rodeia.

Não é por acaso que Santiago de Compostela é considerada pela Unesco, Património Mundial da Humanidade desde 1985. O seu crescimento ao longo dos séculos encontra-se associado ao facto de ser o destino final do Caminho de Santiago, o qual foi declarado como Primeiro Itinerário Cultural Europeu pelo Conselho da Europa. Segundo reza a história, após a crucificação de Jesus, o Apóstolo Tiago pregou o evangelho na Galiza. No entanto, de regresso a Jerusalém, foi decapitado pelo Rei Herodes e os seus restos mortais, segundo a lenda, foram levados de volta à Galiza, transportados num barco de pedra numa viagem que durou sete dias.

Numa época em que o mundo parece ter endoidecido de vez, pois o único diálogo que se ouve é o das armas, e restos mortais, é o que há mais, entendemos crucial dar a perceber aos nossos alunos, no terreno, o sentido e valor de palavras como: solidariedade, entreajuda, e (tentar) viver com o mínimo indispensável. Queremos conversas diferentes das que estão na ordem do dia e abrem telejornais: “precisamos de armas para nos defendermos; queremos a paz e por isso bombardeamos tudo e todos sem descriminar instalações e pessoas, militares e/ou civis.”

O termo habitual daquilo que vamos realizar com os alunos da ESVV, designa-se por peregrinar. Ou seja, concentrando-nos no essencial do dia-a-dia, não tropeçando nas pedras do caminho, dando as mãos a outros para que, conjuntamente, atinjamos um objetivo comum - chegar a pé a Santiago. O que vamos fazer - caminhar - é o que centenas de milhares de mulheres e crianças ucranianas fazem por estes dias, mas com algumas ENORMES diferenças: vamos porque queremos; não fugimos da guerra; no regresso, teremos a nossa casa e a nossa família a quem poderemos voltar a abraçar e estaremos mais preparados para acreditar em quem nos acompanhou, e, até, em nós próprios.

Que alguns dos inúmeros refugiados ucranianos (porque a destruição/mortes mostram-nos que para todos será impossível) possam um dia, que não se quer longínquo, ter a possibilidade de regressar, também eles, a casa e às suas famílias, são os nossos votos sinceros.


Autor: Carlos Mangas
DM

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11 março 2022