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O APAGÃO

1 - Com o exaustivo noticiário sobre a criminosa guerra da Ucrânia, apagaram-se as notícias sobre a realidade (e a novidade) nacional. Os canais noticiosos das televisões, das rádios e, em menor escala, também na imprensa escrita, só falam da guerra. Do país, só uma ou outra notícia sempre breve e solta. Nos canais noticiosos (SIC Notícias, RTP 3 e CNN Portugal) as notícias podem variar de um dia para o outro. Infelizmente sempre más. Mas, ao longo do dia, informações e imagens são sempre as mesmas e chocantes, «ad nauseam» repetidas durante vinte e quatro horas. Não é que as notícias da Ucrânia não sejam importantes: são importantíssimas – quer pelos criminosos massacres que lá ocorrem, quer pela ameaça que constituem para o Ocidente. Mas «notícia» é o que é novidade. Esta, depois de ser divulgada, deixou de ser «notícia». Uma vez gravadas umas informações de um dos muitos «enviados especiais», ilustradas por umas quantas imagens então recolhidas, os estúdios entram «em modo de cruzeiro» e não fazem mais do que repetir, não de hora a hora, mas de quarto em quarto de hora, as mesmas informações e as mesmas imagens – uma espécie de greve de zelo. Quanto a notícias de outra índole, nomeadamente do país – o apagão é total. 2 – E, no entanto, muitas coisas estão a acontecer entre nós, sem que delas se fale, ou se fale de fugida e a medo. As recentes eleições dos emigrantes, a dança do preço dos combustíveis (e a sua explicação), o acolhimento de ucranianos, a inflação que já aí está, o que podemos esperar da Europa nas novas circunstâncias, a intervenção do Presidente da República na formação do novo Governo, as modificações a que vai ter que ser sujeito o novo Orçamento de Estado, enfim, toda a vida política, económica e social foi apagada pelas notícias da guerra. Nomeadamente – e sobretudo e principalmente e absurdamente e gravemente – as notícias sobre a pandemia Covid 19. 3 – As notícias da guerra eclipsaram e substituíram, na comunicação social, as notícias da pandemia. Entre nós, parece que a pandemia acabou, já é passado. Como os noticiários deixaram de falar nela, abrandou a consciência social do perigo – o que só o potencia. Em Portugal, milhares de pessoas continuam a ser infectadas e a infectar todos os dias. E, pior do que isso, o número de mortos diários continua na ordem das dezenas. Em países longínquos os casos de infecção continuam altíssimos. Na China, há novamente, cidades com milhões de habitantes em confinamento . É lá muito longe, sabemos. Mas foi lá longe que tudo começou. E, rapidamente, tudo cá chegou. 4 – O apagão da comunicação social (sobretudo televisiva) sobre a vida interna do país (designadamente sobre a pandemia) está a contribuir grandemente (e gravemente) para a inconsciência colectiva – o contrário da sua primeira e mais nobre missão, a missão de informar. Nota: por decisão do autor, o presente texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.
Autor: M. Moura Pacheco
DM

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26 março 2022