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Novos censores?

Não vi o programa televisivo SOS 24, do Bruno Caetano, do passado dia 3 do corrente mês de Janeiro, no canal TVI 24, que teve como convidado Mário Machado (MM), um conhecido líder da extrema-direita, com largo cadastro criminal e conotado com organizações neonazis. Como igualmente não vi o programa “Você na TV”, do Manuel Luís Goucha, na TVI, para o qual o mesmo indivíduo também foi convidado.

Todavia, li posteriormente relatos e comentários sobre questões colocadas pelos respectivos apresentadores e respostas dadas pelo convidado que me permitem considerar absolutamente desinteressantes e a roçar o patético as intervenções de uns e de outro.

De resto, o carácter, a personalidade e a formação do entrevistado não permitiriam esperar outra coisa, pelo que, desde logo, o critério da sua escolha seria passível de, no mínimo, ser considerado incómodo e de muito mau gosto pelo comum dos telespectadores.

Para além disso, justificar-se-ia, em qualquer desses programas, uma mais detalhada apresentação do perfil do entrevistado, por forma a permitir a quem não o conhecesse um juízo suficientemente informado sobre as declarações por ele prestadas.

Percebo que para muita gente cause repulsa ver no pequeno ecrã alguém que defende o regresso do Salazar e subliminarmente a ditadura. Como igualmente perceberia a indignada reacção de muita outra gente perante declarações produzidas por um qualquer cadastrado da área da extrema-esquerda que porventura viesse defender o regime venezuelano ou a ditadura do proletariado adoptada e seguida pelo regime marxista cubano.

O que não compreendo nem posso aceitar é que um ministro do actual governo se permita usar no Twitera sua liberdade de expressão para afirmar que a atitude da TVI ao convidar MM para os ditos programas “não é muito diferente de quem ateia incêndios pelo prazer de ver as labaredas”.

E isso porque, não estando em causa a liberdade de crítica de uma estação televisiva, acusada concretamente de mover-se por uma mesquinha “guerra de audiências”, afigura-se-nos intolerável, por incompatível com a responsabilidade institucional que o seu cargo ministerial comporta, que se expresse, como se expressou, desrespeitando o direito dos outros à liberdade de expressão e fazendo-o em moldes intelectualmente pouco rigorosos.

Efectivamente, a sua atitude em pouco se diferenciou da persecutória e odiosa tomada de posição do Sindicato dos Jornalistas (SJ), da SOS Racismo e da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERCS), nem, tampouco, da dos radicalistas partidos de esquerda para quem apenas a sua intolerância é tolerável, por só as suas ideias serem verdadeiras, na linha da ditadura do politicamente correcto.

Não estranhei, por isso, que um dia depois do programa do Bruno Caetano ter ido para o ar, o SJ tenha anunciado a apresentação de queixa contra a TVI junto da dita ERCS e da Assembleia da República pela presença de MM nesse programa, considerando “inqualificável o tempo e o espaço” concedidos por esse canal a MM, “conhecido líder da extrema-direita, várias vezes condenado e preso por diversos crimes”.

Como também não me surpreendeu ter sabido que, por participação da ERCS, o Ministério Público está a investigar o referido jornalista da TVI por alegados crimes de discriminação racial e de incitamento ao ódio, apesar da garantia de que o caso não está relacionado com o convite de MM para ir ao mencionado programa SOS 24. E que a mesma entidade havia feito uma recomendação à TVI para que evitasse comportamentos do mesmo género.

Quando um membro do Governo não é capaz de respeitar o direito à liberdade de expressão e quando parece pretender trilhar-se um caminho de criminalização de opiniões críticas, promovendo ódios e tornando perigosa a tolerância, está a dar-se um péssimo sinal para a democracia. E até apetece perguntar: afinal, quem quer a censura de volta?


Autor: António Brochado Pedras
DM

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11 janeiro 2019