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Nossa Senhora no coração dos artistas

O século XIV, tal como os que o precederam, foi muito determinado por uma devoção forte a Nossa Senhora, desde as famílias reais ao povo. Santa Maria era a sua protetora nas alegrias, nas tristezas, nas aflições das batalhas, nas vitórias e em todos os percursos da vida. Podemos recordar:

- A Rainha Santa Isabel, como todos sabemos da nossa história, devota fervorosa da Virgem, Senhora da Conceição, Senhora do Pranto, Senhora das Mercês e Senhora da Assunção;

- D. Dinis, como já referenciei noutros momentos destas crónicas, dedicou uma parte das suas trovas denominadas «de louvores da Virgem Nossa Senhora»;

- D. Nuno Álvares Pereira entregou todo o seu “coração” a Santa Maria, Heroína, Companheira primordial nos seus combates e no seu viver, vincando esse amor na sua espada, na sua bandeira e nas suas romarias, descalço, com a sua profunda devoção, a Santa Maria

- D. João I, foi um Rei memorial pela entrega a Portugal e a Santa Maria, mandando construir o Mosteiro de Santa Maria da Vitória (Mosteiro da Batalha). Sabe-se que foi a pé, com a sua comitiva, do local do Padrão de D. João I, denominado, ainda, como Padrão de Aljubarrota ou Padrão de S. Lázaro, situado junto à capela de S. Lázaro, em Creixomil, Guimarães, até ao do Salado, junto à Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, cumprindo a promessa pela Vitória de Aljubarrota, uma prova da devoção de El-Rei D. João I a Santa Maria de Guimarães.

Diz-se que veio logo no ano a seguir à Batalha, em 1386, entregando a Nossa Senhora a sua armadura de combate, assim como alguns bens que havia retirado ao inimigo, entre eles, um cordão de ouro com o comprimento equivalente à distância que separa os dois padrões (segundo algumas fontes). Este e outros objetos valiosos desapareceram em 1975.

Os nossos antepassados foram persistentes na fé, alargando e defendendo a nossa Pátria. Santo António referiu: «ao homem perseverante Deus enviaria sua graça e daria tudo o que ele necessitasse, menos a satisfação dos caprichos.»

No que concerne à iconografia marial deste período, houve uma alteração “tanto no espírito como na expressão” sobretudo em Paris, em Amiens e noutras regiões francesas em que Maria se torna “mais feminina e mais materna”, com uma arte mais cuidada, mais monumental, notando-se, segundo li, a raridade dos mainéis (colunas) do séc. XIV que servem de base para as suas imagens.

Surgem, por outro lado, esculturas e outros trabalhos isolados em grande número, num tempo em que a devoção à Virgem é, como já disse, cada vez maior, tomando “um aspeto próprio a um tempo mais popular e confidencial.” Temos o exemplo de uma imagem rica da Virgem e o Menino, patente no Museu Machado de Castro de Coimbra, que pertenceu à Rainha Santa Isabel. Destaca-se, também, a arte inspirada na forte devoção à Virgem na Igreja de Santa Maria de Guimarães (Oliveira).

A escultura tumular e monumental revelou, mais profundamente, o génio artístico português como se pode verificar, por exemplo, em Oliveira do Hospital (Retábulo da Igreja Matriz); Braga (na Sé, a Capela Tumular, mais conhecida como Capela da Glória, mandada construir por D. Gonçalo Pereira, onde está sepultado.

É de realçar escultores famosos desse tempo, como o Mestre Pero e Telo Garcia. Diz-se que foram firmados contratos com estes artistas, em 1334, para a execução do sarcófago monumental onde está sepultado este bispo); Alcobaça (túmulos de D. Pedro I e de D. Inês de Castro, obras-primas da arquitetura gótica…);

Coimbra (Túmulos da Rainha Santa Isabel e da sua neta Isabel da autoria dos referidos artistas, Mestre Pero e Telo Garcia, ornamentados com as imagens de Nossa Senhora no Calvário, da Virgem e o Menino são mais uma prova na crença da “vida” depois da morte, quase sempre protegida pela Mãe Maria Santíssima e Jesus Cristo, Seu divino Filho.

Por estes motivos, temos mais uma prova da autoria do sarcófago do Bispo, D. Gonçalo Pereira, na Sé de Braga, que apresenta caraterísticas semelhantes); Santarém (relevo da Anunciação no túmulo de D. Leonor Afonso, na igreja do Convento de Santa Clara, filha de Afonso III, sendo freira neste convento.)…

Principal fonte destas crónicas:“Fátima Altar do Mundo”, 3 volumes, sob a direção literária do Dr. João Ameal da Academia Portuguesa da História; direção artística de Luís Reis Santos, historiador de arte e diretor do Museu Machado de Castro, Coimbra; realização e propriedade de Augusto Dias Arnaut e Gabriel Ferreira Marques, editada pela Ocidental Editora, Porto, em 1953.


Autor: Salvador de Sousa
DM

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24 janeiro 2019