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No país em estado de austeridade perpétua

Quem o diz é Sérgio de Sousa Pinto, insuspeito militante socialista. E se pensarmos bem, é isso mesmo o que tem acontecido. Vivemos num país em estado de austeridade que não acaba. Sempre com desculpas disto ou daquilo e com mais ou menos teatro, mas uma prática corrente que tem feito da vida dos portugueses, na sua generalidade, um inferno ou, pelo menos, um purgatório de onde não se consegue sair. Há muitos anos que não progredimos por causa de políticas a pensar mais nos votos do que nas pessoas, apesar de nos dizerem o contrário, e a cometer erros de palmatória, num ciclo vicioso que tem tolhido o surgimento de iniciativas promissoras. E foram vários os responsáveis que pensaram mais no seu umbigo do que no país. Depois de Cavaco Silva, primeiro-ministro, os mandatos foram errantes. António Guterres tinha paixões – sabemos como são as paixões – e levou o país até ao pântano; Durão Barroso abandonou as funções do governo de Portugal por um lugar que lhe interessava pessoalmente; com Sócrates sabemos como foi e como terminou, com Portugal à beira da bancarrota e a ter de pedir emprestado dinheiro para sobreviver; depois, seguiu-se-lhe Passos Coelho que levou com as culpas todas do sofrimento dos portugueses por causa das exigências da troika, mas também por causa da veleidade de dar nas vistas carregando nas tintas da encomenda; mais recentemente, António Costa prometeu mundos e fundos e a recuperação dos rendimentos perdidos pelos portugueses no tempo da austeridade troikiana, mas falhou.

O país vive em crise permanente e essa circunstância é apanágio para que os mandantes se desculpem pelo que decidem: a culpa é da circunstância e dos governantes que antecederam os que governam. Podem passar décadas que os últimos se refugiam no que outros fizeram; a culpa nunca é assumida pelos que governam mal, antes assacada a quem tenha governado antes. Como diz o Professor José António C. Moreira, “Se a criatividade contabilística criasse valor, Portugal seria, sem dúvida, um país rico”. Como não cria, é apenas uma manobra de diversão que os governos usam - e o que temos é o maior especialista desde Abril de 1974 -, para criar a ilusão de que são centros de decisão sérios, competentes e amigos dos eleitores. Veja-se o recente pseudo-apoio aos reformados e pensionistas para fazer face ao aumento do nível de preços. A criatividade foi espectacular, mas o resultado na vida dos destinatários é uma fraude.

Governos como o que temos não garantem, por isso, o futuro dos cidadãos. Não asseguram o futuro do país, apenas preparam as pessoas para o acto eleitoral seguinte. Tudo é marketing político para açambarcar votos que valem depois representações. As consequências desta incapacidade dos Executivos fazerem as reformas necessárias e tomarem as medidas consentâneas com aquelas são a norma, a austeridade permanente em que o país vive. Em Portugal, os governos não têm pensado verdadeiramente nisso; se o tivessem feito, a austeridade não teria criado raízes por cá.

Estou hoje convencido, mais do que alguma vez estive, que a austeridade não tem sido causada por partidos mais à direita do espectro político português, mas pela esquerda. Na verdade, tinha sido até agora a direita a aplicá-la, mas compreende-se melhor a realidade quando é agora a própria esquerda a implementá-la, apesar de ter a folga orçamental que outros governos de direita não tiveram.

A austeridade não existe só quando se cortam nominalmente salários ou se aumentam os impostos; existe igualmente quando não se aumentam os salários, as pensões e as reformas, ou se aumentam em níveis inferiores à inflação. Hoje, o sentimento geral é de que o poder de compra está a diminuir. Ora, se o poder de compra se deteriora, existe austeridade a pairar na economia das famílias. Será que não será altura de darmos oportunidade a outras opções económicas, designadamente, mais liberais? É que é precisamente nos países onde foram implementadas que as sociedades têm um nível de bem-estar geral superior!…


Autor: Luís Martins
DM

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27 setembro 2022