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NESTE VERÃO TÃO CALOROSO

Nestes dias estamos a viver um calor insuportável. Muitas vezes, deixa-nos sem vontade de cumprir as nossas obrigações. Se se sai à rua, sentimos o sol como uma espécie de inimigo e as baforadas de ventos quentes, cada vez mais intensas, deixam-nos com vontade de voltar a casa rapidamente, onde, pelo menos, nos podemos abrigar por uns momentos dessa temperatura inimiga do nosso bem-estar.

Fechamos as janelas, procuramos um recanto mais fresco, ou melhor, onde o bafio do ambiente não seja tão agressivo, pois nos deixa sem vontade de fazer o que quer que seja.

Sentamo-nos em algum sofá cómodo, procurando não nos mexer muito, porque também dentro de casa os graus, se são um pouco mais amenos, a verdade é que começam em breve a aumentar só com a nossa presença. E nesta situação, não somos bem o que somos: nascem ideias mais vagas do que as nuvens, o corpo entra em quietude e, se não tomamos qualquer iniciativa, acabaremos por perder por completo a consciência.

De súbito, julgamos despertar dessa modorra, que nos pareceu muito rápida. Supomos que vemos o relógio, fiel companheiro que cumpre o seu trabalho seja no mais resfriado inverno ou no mais abafadiço verão, e constatamos, com surpresa que assim se passou mais de hora e meia.

Sinto-me confuso e envergonhado comigo mesmo! Que perda de tempo! Parece impossível!

Tento levantar-me, mas um cansaço inumano faz-me voltar à posição em que me encontrava. Com algum esforço, procuro de novo pôr-me em pé. No entanto, a meio desse esforço começo a ponderar que se calhar o melhor é sentar-me e descansar, porque na minha idade não convém contrariar o que a natureza, já um pouco esmorecida, reclama das nossas possibilidades.

Chega um momento em que já não sou consciente se estou de pé ou sentado. Por vezes, sinto um pouco de vergonha de mim mesmo por não me encontrar a trabalhar naquilo que me compete e é meu dever. Mas a fadiga, ou o que julgo que manda em mim naquelas circunstâncias, segreda-me caprichosamente que o melhor é deixar-me cair no sofá sem mais hesitações.

Julgo que perdi o controle sobre o meu corpo, a minha mente e todo o resto do meu ser. Estarei sentado ou de pé? Quem sou eu? Onde me encontro? Qual o sentido destes meus raciocínios? E já nem pergunto: o que devo fazer?

Tenho a vaga impressão de que sulco uma espécie de oceano calmo e sereno, mas com ondas gigantes que me assombram e me levantam até ao seu topo e depois me fazem resvalar placidamente até ao seu leito mais profundo.

De súbito, ouço um ruído estranho e violento. Familiar, no entanto. É o cão de um vizinho em perseguição do gato muito ágil de outro vizinho, que sempre escapa a tais perseguições. Com os seus latidos desaustinados, desperta-me mesmo e verifico que nunca me tinha levantado do sofá. Tudo fora obra da minha imaginação, dominada por um torpor tremendo, que me fizera viajar por tão estranhos horizontes. Olho para o meu relógio: Tinham passado três horas bem reais. Sinto-me muito atordoado, porque devia de comparecer, há cerca de trinta minutos, numa reunião laboral importante. O telefone começa a tocar. Devem ser os participantes no referido encontro. Não atendo, saio porta fora, mas... o calor quase me faz desanimar. Volto atrás. Abro o frigorífico para tirar uma pequena garrafa. O telefone não para de insistir. Deixo-o esquecido e avanço para o carro. E já me encontro a transpirar profundamente, talvez por ter sorvido toda a água bem gelada.


Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

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7 agosto 2022