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Na sala dos professores…

O episódio ocorreu este ano na sala dos professores de uma escola do norte do país. Uma jovem em início de carreira preenchia a grelha de avaliação do final de trimestre. O trabalho produzido pelo aluno era medíocre. Levantou-se, dubitativa, para pedir a opinião de uma docente com duas décadas de ensino. “Respira? Então, tem 2!”, responde esta prontamente. “E vem às aulas?”, prossegue. Perplexa, a mais nova anui. “Então, é um 3!”, conclui a interlocutora. Desnorteada, a professora recém-formada diz hesitar entre um e dois valores. Não lhe passa pela cabeça atribuir uma avaliação positiva. A colega mais calejada exibe-lhe então toda a documentação a preencher – com o respetivo programa de acompanhamento – em caso de reprovação. Confrontada à cordilheira burocrática que se assoma no horizonte e à falta de condições para levar a cabo tal tarefa, a docente acaba por perceber o alcance da conversa.

Não presenciei este episódio. Foi me reportado por uma testemunha ocular. A minha experiência no ensino básico e secundário resume-se a um ano letivo na Carlos Amarante, em Braga, em meados dos anos 90. Um número significativo de docentes com os quais tenho conversado ou lido os testemunhos partilham, todavia, a mesma narrativa: sobrecarga de tarefas administrativas em detrimento de condições para um trabalho pedagógico de qualidade; falta de reconhecimento socioeconómico; obsessão das tutelas pelas estatísticas e dificuldade em lidar com questões de natureza familiar, entre outras. Com certeza, também há profissionais realizados e escolas que conseguem propiciar excelentes ambiente de ensino-aprendizagem. Contudo, as nuvens vão-se adensado cada vez mais, em Portugal e noutras latitudes.

Há dias, The Guardian (26/06/22) publicava um artigo intitulado “I can’t stay. It’s not enough’: why are teachers leaving Australian schools?" As queixas da classe docente australiana são as mesmas: "Esperam de nós que façamos milagres. Em cada lição, temos de nos certificar de que estamos a satisfazer todas as necessidades de cada criança, desde a que sofreu traumas até ao génio (diagnosticado pelo pai).” E ainda: “os meus dias estão cheios: gestão comportamental, bombardeamento de e-mails, avaliar trabalhos, dar feedback aos alunos e aos pais, estabelecer objetivos gerais e programas individualizados, preencher tabelas para as estatísticas (…) Se ao menos, pudesse ensinar!" Exige-se cada vez mais. Há cada vez menos condições.

Em França, por estes dias, fala-se mesmo de estado de urgência (France Inter, 03/07/22) para descrever a falta de dezenas de milhares docentes em todos os graus – já se recorre às redes sociais e ao OLX lá do sítio para atrair candidatos – que se alvitra para 2022/23. Em Espanha, disserta-se já há tempos sobre o tema: “Por qué hay tantos profesores enfadados” (El País, 08/06/21). Os media da Suíça, Itália, Estados Unidos, Alemanha e por aí diante – embora os contextos sejam diferentes – deixam transparecer inquietações comuns. Não obstante, tal como acontece com a atual vaga de incêndios, não é porque também “arde” noutros países que não temos responsabilidades acrescidas no que acontece intra muros.

Nessa manhã, a jovem docente daquela escola do norte do país optou por atribuir três valores ao aluno que produzira um trabalho medíocre. Não por preguiça, mas porque se apercebeu que a burocracia – que Durkheim definia como um sistema de organização eficaz caraterístico das sociedades modernas, alicerçado em regras estáveis e profissionais especializados – há muito deixou de estar ao nosso serviço para esmagar quem quer se atreva a questioná-la. Não por incompetência, mas porque cedo se esfumou o sonho de uma vocação ao serviço dos mais jovens nas labaredas da precariedade laboral. Em Portugal, metade dos docentes têm mais de 50 anos. Hoje, quase ninguém quer ser professor. Em vez de vivermos obcecados com avaliações PISA e outros “rankings” – já nem em português nos damos ao trabalho de escrever –, melhor faríamos em investir seriamente na educação e nos seus agentes. O mesmo se poderia dizer a propósito doutras áreas. Investir bem agora para poupar despesas futuras bem maiores.

*Professor da Universidade Católica Portuguesa – Braga
Autor: Manuel Antunes da Cunha
DM

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16 julho 2022