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Na morte de um mestre

Há muito esperada, a notícia, contudo, feriu como uma punhalada: morreu o Prof. Doutor Joaquim Veríssimo Serrão – o meu modelo de investigador e mestre. O historiador eminente, o investigador incansável, o mestre motivador e afável, enfim um dos marcos imorredoiros da historiografia portuguesa na segunda metade do séc. XX, deixava este mundo legando-lhe, além de uma vasta bibliografia, uma plêiade de discípulos admiradores e devedores espalhada por universidades, bibliotecas, arquivos, centros de investigação. Joaquim Veríssimo Serrão nasceu em Santarém a 8 de Julho de 1925. Frequentou o liceu local que concluiu em 1943 com a classificação de 15 valores. Em Outubro de 1944, matriculava-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no Curso de Histórico-Filosóficas que concluiría em 1948 com a tese «O sentido da História. Breve introdução a um problema», onde obteve a classificação de 16 valores. Dois anos mais tarde, parte para a Universidade de Toulouse a exercer as funções de Leitor de Português. Aí apresenta uma tese de doutoramento: «A Infanta D. Maria (1521-1577) e a sua fortuna no sul de França» que mereceu a classificação de «Très honorable avec félicitations du jury». De regresso a Portugal, apresenta-se a novo doutoramento na sua Universidade de Coimbra com a tese «O reinado de D. António, Prior do Crato. Vol. l (1580-1582)». Foi aprovado com 18 valores. Pede então a transferência de primeiro assistente para a Universidade de Lisboa onde, ao fim de dificuldades de ordem política, consegue ser admitido ao concurso para Professor Extraordinário com uma dissertação sobre «Portugueses no Estudo de Salamanca. Vol. l (1250-1550). Foi aprovado por unanimidade. Interrompe então a actividade docente para assumir a direcção do Centro Cultural Gulbenkian em Paris, onde desenvolve uma actividade notável, plasmada nos famosos «Arquivos da Fundação» que fez publicar. De regresso à Universidade, faria concurso para Professor Catedrático com uma lição pública sobre «Antecedentes de1580». Igualmente aprovado por unanimidade. Em 1973 foi nomeado Reitor da Universidade Clássica de Lisboa, lugar de que seria exonerado no dia 26 de Abril de 1974. E, pouco depois, «saneado» - como então se chamava à expulsão da função pública sem processo, nem julgamento, nem motivo. Só muito mais tarde seria reintegrado. Entretanto, em 1975, os mais insignes historiadores portugueses, seus pares, elegiam-no Presidente da Academia Portuguesa de História, cujos destinos, brilhantemente orientou por mais de vinte anos. Ao longo de todo este percurso foi sempre um incansável investigador, cujos resultados ia publicando numa extensa bibliografia com mais de 150 títulos, entre os quais se destaca uma monumental «História de Portugal» de 18 volumes. Foram seis as suas grandes linhas de investigação: 1 – A história portuguesa dos sec. XV a XVIII. 2 – Relações culturais com as Universidades de Espanha e de França. 3 – Correntes e figuras da historiografia nacional. 4 - História do Brasil nos sec. XVI e XVII. 5 – História do Direito Português. 6 – Epistemologia histórica. Poderemos ainda acrescentar uma sétima linha – a cúpula de todo isto plasmada na já referida «História de Portugal». Como professor, foi um pedagogo da mais pura água: as suas aulas atraíam para o estudo da História, motivavam os alunos para o seu culto, através de uma exposição viva e clara, servida por um verbo brilhante e sugestivo, apaixonado pela matéria que expunha. Ouvir uma aula sua era gozar uma hora de prazer intelectual. À história dos factos juntava sempre a história das ideias pois – como insistia – sem estas nunca se perceberão aqueles. As suas preocupações epistemológicas, de rigor e de ética historiográfica eram a grande marca que deixava aos seus alunos. Paralelamente, num tempo em que os professores cultivavam uma austera distância com os discípulos (anos 60 do século passado), o Professor Serrão cultivava o contrário – uma proximidade afável, uma disponibilidade permanente, pautadas por um respeito e urbanidade mútuas em que era particularmente exigente. Como exigente era em matéria científica e na prestação de exames em que combinava muito habilmente rigor e descompressão psicológica. Mais do que tudo, ensinava a estudar, a investigar, a pesquisar e, no fim e só no fim, a sintetizar. Assim, mais do que alunos, criou discípulos com uma nova visão da historiografia que hoje servem nas mais diversas instituições culturais. O silêncio que se fez à volta da sua morte (com excepção do Presidente da República) trouxe-me à memória uma afirmação de Tomás de Figueiredo em tempos de Estado Novo: «Vivemos politicamente numa ditadura de direita e culturalmente numa ditadura de esquerda». A ditadura politica de direita morreu, mas a ditadura cultural de esquerda está bem viva. Num tempo em que a História é mais invenção do que descoberta, em que é mais um amontoado de factos desconexos, desligado de ideias que os expliquem, num tempo, em suma, em que a História deixou de ser escrita para ser re-escrita – a lição, o exemplo, o testemunho, a probidade do Professor Doutor Veríssimo Serrão são altamente incómodos. Daí este eloquente silêncio. Seja, ao menos, este testemunho um humilde ramo de violetas deposto na sua sepultura por insolvente dívida de gratidão cultural e humana de quem, orgulhosamente, se considera seu discípulo.   Nota: por decisão do autor, este texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.
Autor: M. Moura Pacheco
DM

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5 agosto 2020