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“Mostra-me o teu rosto...”

O uso de óculos de sol, tão frequente neste tempo de verão, e a utilização de máscara sanitária, a que a situação pandémica nos obriga, dificulta-me imenso o reconhecimento das pessoas com quem me cruzo ou encontro. Não fora a voz, por vezes também não muito percetível, e ser-me-ia (quase) impossível reconhecê-las. Eu sei que o brilho do sol estival e as razões de saúde pública exigem que seja assim, mas a verdade é que agora se sente mais a falta daquilo que dantes não valorizávamos tanto: o rosto e a voz. Ou, como afirmou D. José Cordeiro, “o uso da máscara exercita ainda mais o ouvir e o olhar!” (Homilia da solenidade de Nossa Senhora das Graças, padroeira principal da cidade de Bragança e titular da respetiva catedral, in Diário do Minho, 24 de agosto). A pensar nestes assuntos, veio-me à mente o pedido que, no livro sapiencial Cântico dos Cânticos, o amado faz à amada: “Mostra-me o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz” (Ct 2, 14). E vale a pena recordar o que diz a seguir, no mesmo versículo: “a tua voz é suave e o teu rosto encantador”. O rosto e a voz identificam-nos, são essenciais à comunicação, à relação e aos afetos. Viver em sociedade implica mostrar o rosto e ver o dos outros, dirigir-lhes a palavra e escutá-los. O rosto é a janela do interior, “a nossa alma virada para o exterior” (João Duque, “Eu, o outro e a máscara”, in Diário do Minho, 17 de maio passado) e, por isso, assume diversas expressões, conforme o que nos vai por dentro. “É nele que se revela, da forma mais transparente possível, a nossa identidade e o nosso estado de espírito” (João Duque). Em situações normais, o que se manifesta por fora corresponde ao que se vive por dentro. Quando assim não acontece, o palco da vida confunde-se com o do teatro. A propósito, vale a pena recordar que a máscara começou por ser usada no teatro e que o termo grego prosopon (máscara) deu origem ao étimo latino “persona” e à palavra portuguesa “pessoa”. Sobre o rosto e a exterioridade, proveitoso e esclarecedor se torna ler Emmanuel Levinas, Totalidade e Infinito (ed. 70, pp. 165-197). Megafone da mente e do coração, a voz identifica-nos ao perto, ao longe e mesmo na ausência física (reconhecer alguém, pela voz, ao telefone, é uma experiência pela qual já todos passámos). Tal como o rosto, também ela traduz os pensamentos e sentimentos mais íntimos, revela o nosso estado de espírito e coloca-nos em comunicação e relação. Além disso, o modo como falamos e a respetiva entoação reforçam as palavras, completam-lhes ou reconfiguram-lhes o sentido. Se, para quem ama, nunca a voz deixa de ser suave nem o rosto encantador, a verdade é que, nas atuais circunstâncias, a voz apresenta-se algo distorcida e o rosto um pouco desconfigurado. Urge exercitar ainda mais o ouvir e o olhar, prestando mais atenção. Esperamos, por isso, que o uso da máscara seja passageiro e não deixe muitas marcas interiores. Desejamos mesmo que, entretanto, ninguém se aproveite das atuais circunstâncias para se mascarar, escondendo a personalidade e deixando de cuidar dos outros. Podemos esconder tudo a todos, mas a Deus e à nossa consciência nada escapa, somos constantemente por eles desmascarados. Conforta-me saber que, por detrás do uso da máscara, há uma preocupação mais ou menos evidente e consciente pelo outro. “Não é, por isso, uma máscara egoísta, defensiva; é uma máscara responsável, solidária, proactiva” (João Duque). Ao usá-la, não estamos a esconder-nos atrás dela, mas a revelar ao outro que nos preocupamos com a sua vida, até que chegue o momento em que possamos, com voz nítida, formular, de novo, o pedido: “Mostra-me o teu rosto...”.
Autor: P. João Alberto Correia
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31 agosto 2020