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Migrantes e refugiados

Apesar de o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) reservar a data de 20 de junho de cada ano para celebrar o Dia Mundial do Refugiado, desde 1914 (já lá vão 108 anos!) que a Igreja o celebra no quarto domingo de setembro, sob uma designação mais completa: Dia Mundial do Migrante e Refugiado. Trata-se de “uma ocasião para exprimir preocupação pela diversidade de pessoas vulneráveis que se deslocam; para rezar por elas, dado que enfrentam muitos desafios; e para aumentar a sensibilização acerca das oportunidades proporcionadas pelas migrações”.

Na mensagem para este ano publicada, com o título Construir o futuro com os migrantes e os refugiados, o Papa Francisco afirma, entre outras coisas, que “somos chamados a renovar o nosso compromisso a favor da construção de um futuro mais ajustado ao desígnio de Deus, a construção de um mundo onde todos possam viver em paz e com dignidade”.

Um pouco mais adiante, acrescenta que “ninguém deve ser excluído. O plano divino é essencialmente inclusivo e coloca, no centro, os habitantes das periferias existenciais. Entre esses, há muitos migrantes e refugiados, deslocados e vítimas de tráfico humano. A construção do Reino de Deus é feita com eles, porque, sem eles, não seria o Reino” e “a inclusão das pessoas mais vulneráveis é condição necessária para se obter nele plena cidadania”.

São afirmações que nos trazem à memória o título e o tema de idêntica mensagem para a mesma celebração, no ano passado (Rumo a um nós cada vez maior), onde o Papa dizia claramente: “estamos todos no mesmo barco e somos chamados a empenhar-nos para que não existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas só um nós, do tamanho da humanidade inteira”.

Retomando a mensagem para este ano, o Papa sustenta que “construir o futuro com os migrantes e os refugiados significa também reconhecer e valorizar tudo aquilo que cada um deles pode oferecer ao processo de construção. Com efeito, diz o Senhor: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, era peregrino e recolheste-me, estava nu e deste-me que vestir, adoeci e visitaste-me, estive na prisão e fostes ter comigo (Mt 25, 34-36)”.

E, um pouco adiante, acrescenta: “a história ensina-nos que o contributo dos migrantes e refugiados foi fundamental para o crescimento socioeconómico das nossas sociedades; e continua a sê-lo hoje. O seu trabalho, capacidade de sacrifício e entusiasmo enriquecem as comunidades que os acolhem”. As lições da história sugerem que não há razões para ter medo de quem vem de fora, mesmo se a sua vinda possa acarretar algum transtorno ou problema. Viver em sociedade é bom, mas implica sempre alguma renúncia. Não só “a presença dos migrantes e refugiados constitui um grande desafio, mas também uma oportunidade de crescimento cultural e espiritual para todos”. As nossas raízes e a nossa identidade saem reforçadas e enriquecidas quando convivemos com pessoas de outras latitudes e expressões culturais.

O Papa Francisco termina a sua mensagem para este Dia, afirmando que “a chegada de migrantes e refugiados católicos dá nova energia à vida eclesial das comunidades que os acolhem, pois frequentemente são portadores de dinâmicas revigoradoras e animadores de celebrações cheias de entusiasmo”, algo que vai faltando às nossas sociedades ocidentais, marcadas pelo envelhecimento e por rotinas que tornam um pouco mais cinzentas as nossas celebrações e as nossas vidas.

A propósito, convém recordar que a Sagrada Escritura valoriza os estrangeiros e apela a que sejam respeitados, nos seus direitos fundamentais: “Não usarás de violência contra o estrangeiro residente nem o oprimirás, porque foste estrangeiro residente na terra do Egito” (Ex 22, 20; cfr. Dt 10, 19).

Sem esquecer que “o cristianismo constrói-se do lado da hospitalidade” (J. Tolentino Mendonça, A leitura infinita. Bíblia e interpretação, p. 178) e que esta é uma virtude vincadamente cristã, são muitos os motivos para que tratemos bem os migrantes e refugiados, acolhendo-os e integrando-os. A sua presença interpela-nos, acrescentando valor e entusiasmo à vida em sociedade e à vida eclesial, na celebração e na prática da fé.


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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26 setembro 2022