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Mãe Rússia e os seus filhos

No início da II guerra Mundial, perante os horrores da barbárie nazi, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht escreveu a peça de teatro Mãe Coragem e os Seus Filhos, considerada como uma das mais representativas contra a guerra, que em Portugal estreou em 1986, com as interpretações de dois dos maiores talentosos atores nacionais, Ruy de Carvalho e Eunice Munoz, esta no papel da apelidada de “mãe coragem”, mas que tinha mais de pusilânime que do seu antónimo.

Escrita em 1939, é uma das peças que escreveu contra o avanço doFascismo embora, seguindo os princípios brechtianos dodrama político, a peça não esteja situada na sua época, sendo uma crónica teatralizada da Guerra dos Trinta Anos e que retrata o destino de Anna Fierling, que tem por nome “Mãe Coragem”, uma vivandeira que faz da guerra o seu ganha pão, num período entre 1624 e 1636 em que a personagem perde seus três filhos para a guerra e, no final, arrastando sua carroça, canta um hino de louvor à guerra.

Brecht era um marxista convicto e a sua obra, também antirreligiosa, foi apropriada e louvada no pós-guerra pela Alemanha Oriental comunista, onde escolheu residir e apoiar os regimes estalinistas de Picek e Ulbrich – este viria a ser o obreiro do muro de Berlim – e, embora Fierling seja uma personagem complexa, é tida na dinâmica e dialética Brechtiana como a própria figura do capitalismo, encarando a guerra como um negócio e dizendo “Não me digam que veio a paz, agora que eu comprei tanta mercadoria nova!”.

Brecht devia estar vivo para assistir à bárbara agressão militar da Rússia à Ucrânia, liderada por um Putin que é herdeiro convicto e praticante do marxismo-leninismo-estalinismo que foi imposto ao grande povo russo pela revolução bolchevique de outubro de 1917 – recorde-se que à queda do Czar Nicolau II em março de 1917 seguiram-se regimes relativamente moderados, de Lvov e de Kerensky, este um social democrata que viria a fugir de Lenine para o Ocidente – como o demonstra o apoio do PCP à Rússia contra – qual desplante – o que afirmou ser um ataque da Ucrânia e do Ocidente àquela nação, numa matéria em que não pode oferecer a menor das dúvidas a todos democratas quem é o agressor e quem é a vítima, como demonstram as manifestações num só sentido nas nações livres.

Certo é que o capitalismo foi capaz de gerar democracias (com exceções), ao contrário do comunismo marxista que só criou regimes autoritários e as guerras ofensivas, de mera conquista, de subjugação, criminosas, atentatórias da paz, do respeito pelos direitos humanos e da livre autodeterminação, são sempre iniciadas por regimes antidemocráticos, em que o poder é imposto ao próprio povo pelo ditador, como é o caso de Putin, que tresloucado ameaça com o uso do equipamento nuclear sob a denominação virtuosa de armamento dissuasor.

O alegado apoio de Putin a forças ocidentais de extrema direita nazi não surpreende, é uma demonstração inequívoca que os polos se unem, pois tal como a extrema esquerda visam o mesmo desiderato que é a destruição da democracia e a implantação de ditaduras. A invasão da Ucrânia lembra a atuação de Hitler com a invasão da Checoslováquia, após oAnschluss(anexação daÁustria) em março de1938, com o similar pretexto das privações sofridas por populações deetnia alemãque viviam nas regiões norte e oeste da fronteira, conhecidos coletivamente como osSudetos, que acabou na tomada de toda a Checoslováquia, permitida pelo diminuído estatuto dos então líderes da França e da Inglaterra no Acordo de Munique de setembro de 1938, que fez acreditar o monstro nazi nas ilimitadas capacidades de conquista da Europa.

Dá que pensar se teria havido a II guerra mundial se em vez dos apaziguadores Chamberlain e Daladier, respetivamente primeiros-ministros de Inglaterra e da França entre 1938 e 1940, tais países já fossem governados por Churchil e de Gaulle e se os Estados Unidos não tivessem esperado pelo ataque infame a Pearl Harbour em dezembro de 1941 para entrar na Guerra. Felizmente hoje temos a UE, a Nato a ONU e os Estados Unidos a reagir em uníssono contra o ataque russo e em defesa da Ucrânia. Mas também devemos perceber que a Rússia não é Putin, é o berço de um grande povo, profundamente religioso e quem tem ditosos filhos como Dostoievski, Tolstói, Soljenitsin, Tchaikovsky, Kandinsky e o Nobel da Paz Gorbatchov.

Importa orar com o Papa Francisco: “Deus está com os pacificadores, não com aqueles que usam a violência".


Autor: Carlos Vilas Boas
DM

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3 março 2022