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Lições da guerra

Quando o presidente da República Francesa, Emmanuel Macron, disse durante a campanha eleitoral de 2017 que a União Europeia (EU) precisava de mudanças no sentido de a tornar menos burocrática, por certo, estava longe de pensar numa guerra na Europa. De igual modo, quando referiu a necessidade de reforçar a democracia nos países membros e de fortalecer o eixo franco-alemão na construção europeia, não ponderava na hipótese da UE um dia ter de encontrar resposta à bárbara invasão da Ucrânia pela Rússia.

Provavelmente, nem Emmanuel Macron nem qualquer outro líder dos países membros da União Europeia imaginavam o que há quase três semanas, através dos diversos meios da comunicação social, estamos a testemunhar na grande nação ucraniana.

O mundo assiste, ainda incrédulo e atónito, à invasão da Ucrânia pelas tropas russas numa clara afronta ao direito internacional e aos mais elementares princípios da dignidade humana ao ver que os invasores bombardeiam indiscriminadamente instalações civis, como hospitais e escolas.

Pensar que o único mal que a Ucrânia fez foi apenas escolher o seu futuro e preservar a liberdade, é razão suficiente para o mundo livre lhe manifestar solidariedade e total apoio.

A União Europeia não estava preparada para esta monstruosidade, no entanto tem sabido responder a esta crua realidade com coragem e determinação.

União Europeia que, como hoje a conhecemos, teve a sua origem na Comunidade Europeia do Carvão e do Aço fundada em 1951 e que durante a sua já longa existência privilegiou construir bem-estar para as suas populações, descurando aspetos fundamentais da sua soberania. Desde logo na defesa, fazendo depender a sua segurança da Aliança Atlântica, liderada pelos países da América do Norte. Mais adiante, levando a cabo uma arriscada desindustrialização, substituindo muitos dos produtos manufaturados dentro de portas por artigos oriundos de países asiáticos, nomeadamente da China. E, por fim, não foi capaz de acautelar a sua independência energética, ficando sujeita aos fornecimentos de gás, carvão e petróleo provenientes da Rússia.

Perante a realidade de uma guerra que não esperavam, os países membros da União Europeia, a par do Reino Unido, têm mostrado coesão e unidade exemplares. No plano político e económico não têm surgido vozes dissonantes e a condenação da Rússia tem sido unânime. No apoio aos refugiados todos têm contribuído para minorar o sofrimento de milhões de seres humanos em fuga, merecendo um destaque especial a Polónia, a Hungria, a Roménia e a Moldávia, para quem esse esforço tem sido bem maior.

Acreditando que as sansões impostas ao regime de Vladimir Putin e o seu isolamento na comunidade internacional produzam o seu efeito e levem ao silenciar das armas, há lições a tirar que não mais podem ser esquecidas.

A União Europeia não deve continuar a perder importância no contexto mundial e para tal não pode ser dependente de terceiros. Quer a nível da defesa, quer a nível económico e energético tem de conseguir autonomia para se fazer ouvir melhor. No plano político tem de saber aprofundar a unidade na diversidade e falar a uma só voz. No plano imediato tem de ser capaz de criar mecanismos que possam minorar os efeitos da guerra, sobretudo nos países mais pobres e vulneráveis.

Estes efeitos já são bem visíveis aos olhos de todos!

Entre nós, a escalada de preços nos combustíveis e o esperado aumento de bens de primeira necessidade como o pão ou os cereais, são disso um bom exemplo. É urgente tomar medidas que possam deixar de aprofundar as desigualdades e que atirem empresas para a insolvência ou façam famílias ultrapassar o limiar da pobreza em que muitas já se encontram. Descurar estas preocupações levará por certo a muito desencanto e facilitará a vida a quantos, aproveitando a erosão política daqui resultante, tudo farão para semear ilusórios populismos e falsas promessas.

Neste tempo de inquietações e de outras tantas incertezas é preciso “cerrar os dentes” para manter a serenidade e a esperança, na certeza de que muitos dos nossos irmãos ucranianos sofrem, incomensuravelmente, muito mais do que nós.


Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira
DM

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15 março 2022