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“INSÓNIA” DOS FAMINTOS

Oxalá o recente acordo entre a Rússia e a Ucrânia, mediado pela ONU e Turquia, funcione. Digo oxalá porque Putin, a julgar pelas suas ações, não é pessoa fiável. Porém, segundo o estado atual da guerra em que as tropas ucranianas ora avançam, ora recuam, entendo ser essa a única forma de se tentar remediar a carência alimentar mundial. É que caso o ‘Celeiro da Europa’ não consiga exportar os seus cereais, devido à invasão russa, não fazendo chagar os seus produtos agrícolas às carentes comunidades humanas, será uma tragédia, sobretudo para os países mais carentes.

O assalto à Ucrânia levado a cabo pela Federação Russa, baseado em teses de expansionismo territorial e imperial, negação à democracia, ao direito à autodeterminação e independência dos povos, foi a escola de Putin e continua a ser. Não fossem os Estados Unidos da América e os países aliados da NATO e já todos, aqui na Europa, estaríamos sovietizados. Ou seja, se não tivesse havido pressão para ser levada a cabo a Perestroika – com desmembramento da União Soviética e a consequente queda do Muro de Berlim – até Portugal estaria, desde os tempos do PREC, às ordens do Kremlin.

Ora, sendo o 4.º maior exportador de trigo e milho e oleaginosas a Ucrânia era, até ao início desta guerra, o 1.º produtor de óleo de girassol. Daí, serem cerca de 400 milhões as bocas que dependem da produção agrícola ucraniana, cujos agricultores viram soldados, tanques e mísseis russos a destruírem-lhes não só maquinaria agrícola, como muitas das suas colheitas, algumas delas abarbatadas pelos invasores. Pena é que o apoio dos países solidários com a defesa e libertação das zonas ucranianas ocupadas pelos russos, tenda a esmorecer.

E uma vez que a tão desejada paz não se alcança de forma espontânea, como acha o camarada Jerónimo e todo o PCP, mas pela resistência. Sem ela seríamos hoje um produto Nazi do Terceiro Reich, um povo oprimido e facilmente manobrável nas mãos de novos ditadores travestidos de democratas, como Putin quer fazer com os ucranianos. Pouco se importando com o rasto de tragédia, destruição e morte que vai deixando atrás de si. Com sérios reflexos na vida dos outros povos do mundo, como estamos as verificar com a escassez de produtos alimentares, de gás e petróleo, o que vem provocando inflação, subida das taxas de juro.

Só que nós, por cá, temos um problema: o de que quando que viramos à esquerda, desbaratarmos oportunidades e recursos para crescermos económica e financeiramente. E logo que viramos à direita andarmos a tapar o rombo que a pancada do socialismo vai abrindo com as suas governações que sempre deixaram o país à beira do pântano e da bancarrota. Ou seja, gastamos tudo e quem vier atrás que feche a porta que depois cá estaremos para os acusar de culpados da austeridade.

De que adianta termos um grande mar se andamos, há décadas, sem retirarmos, dele, as múltiplas vantagens que nos pode dar, quando nem uma moderna frota pesqueira temos? E que dizer do nosso outrora celeiro alentejano, agora olival intensivo entregue aos espanhóis, ou seco de pastagens? E da pequena lavoura, mais a norte, em que vemos campos a bravo, com frutos por colher a apodrecerem em cima do arvoredo? O que só mostra que os nossos dirigentes cresceram a achar que tudo nasce no supermercado.

A luta do povo ucraniano contra o poderio russo, é uma lição àqueles que tanto criticam a afirmação da identidade nacional dos povos com direito a se protegerem e repelirem quem os queira subjugar na sua própria nação. Não fosse esse amor pátrio e já estaria arrumada a questão a favor do agressor, o que muito agradaria a algumas forças políticas da nossa praça que só dizem querer a paz, sem vencer a guerra.

É, pois, na tenaz vontade de lutar, como escreveu Santo Agostinho, que reside a esperança da Ucrânia vencer a Rússia. A fim de que os campos ucranianos voltem a produzir o indispensável alimento cerealífero, atual “insónia” dos mais pobres e famintos.


Autor:
DM

DM

8 agosto 2022