twitter

Incêndios em Portugal. Portugueses em viagem

Não se reage da mesma maneira quando acontece alguma tragédia no nosso país, se se está no estrangeiro. Tal situação experimentei neste passado fim-de-semana, sofrendo tremendamente com as notícias que chegavam de Portugal, anunciando a morte dramática de várias dezenas de pessoas, vítimas dos incêndios terríveis que avassalaram a nossa terra, sobretudo, creio, na região do centro. O grupo de compatriotas com quem convivi e lidei sentia-se absorto e sem saber o que fazer ou dizer, como é natural. A vida pacífica da gente da nossa terra, pela segunda vez no presente ano, era sobressaltada e sacudida brutalmente com o doloroso falecimento de pessoas pacatas e serenas, a quem as chamas atacavam e tiravam a vida dum modo extremamente lancinante e trágico. Mais ainda, quando pelas localidades e zonas mencionadas dos incontáveis fogos, havia algum amigo ou parente, a aflição aumentava e só atenuava o seu calibre, quando um telefonema para Portugal abrandava o temor ou o fazia desaparecer por completo. Rostos tristes, corações inquietos, nervos afectados, tudo isso concorria para que se tornasse pesada uma viagem em que se pretendia visitar e vibrar com alguns lugares que tanto nos emocionam, pois tratava-se de uma região do mundo de eleição, a Terra Santa. Inevitavelmente, de forma espontânea e indignada, surgiam os comentários duros e implacáveis aos nossos dirigentes políticos. “Que andam a fazer? Grupo de incompetentes! Só sabem falar bem e não fazer o que devem... Com esta gente, Portugal não vai longe... Para já está todo queimado. Oitenta por cento do Pinhal de Leiria ardeu!... As pessoas que morreram em Pedrógão não ensinaram nada a estes governantes de “meia-tigela”. Muita garganta e, à hora da verdade, fogem às suas responsabilidades, saem de cena durante algum tempo e...” Outras expressões vinham de gente nortenha, do Porto e de Braga. Não as mencionarei aqui, e desde já advirto que não aparecem nos dicionários mais recatados. Remetem-nos, porém, a alguns autos vicentinos de bom vernáculo. A indignação era notória e os berros de revolta começavam a chamar a atenção de outros grupos de gente que nos olhava com surpresa e algum temor, sem felizmente entender o vocabulário mais exaltado, porque eram estrangeiros. Mas o português é sempre português... Tem, dentro do peito, um coração que se agita e o faz esquecer das razões mais frias e intelectuais com que encara a realidade e sobre ela disserta como um grande pensador. Talvez por isso, um cavalheiro que me tinha confessado que não acreditava em nada do que dizia a Bíblia e a Igreja sobre a nossa vida, e que viera à Terra Santa para satisfazer a mulher, católica rezadora do terço todos os dias, achou por bem pôr fim a tantas diatribes que se estavam a gritar, cada vez com mais veemência, pedindo-me, em privado: “Senhor Padre, eu já não sei muito bem como são as palavras da Ave Maria. Mas para que não chamemos mais nomes às mães dos nossos políticos, que não têm culpa do que fazem os seus filhos, (ou não são eles maiores há muito tempo?), pedia-lhe para rezarmos todos umas Ave Marias por essa gente que morreu, pelos que ficaram sem casa ou sem trabalho, enfim, por essa calamidade...” Fiz-lhe a vontade. Em coro, as preces a Nossa Senhora devem ter feito entender ao grupo de estrangeiros mais próximo que estávamos a rezar. Parou e, em silêncio, esperou que chegássemos ao fim. E alguns dos nossos, homens e mulheres, entre os quais o promotor pseudo-agnóstico dessas orações marianas, choravam, comovidos e muito compenetrados...
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva
DM

DM

22 outubro 2017