twitter

Humanizar – uma prioridade

Não existindo em Portugal legislação que estipule tempos mínimos ou máximos para este fim, é do conhecimento geral que em certos serviços e unidades de saúde há uma enorme pressão para que se façam muitas consultas, sem considerar a especificidade de cada uma e com o único objetivo de produzir números que cumpram determinados objetivos.

Na realidade, se nos debruçarmos sobre a evolução da organização dos serviços de saúde poderemos verificar que nas últimas duas décadas houve um aumento de gestores nas administrações que passaram a impor as suas regras. Em paralelo, assistimos á crescente informatização dos serviços e à construção de uma teia burocrática que em lugar de deixar mais tempo para a nobre função dos profissionais de saúde – o atendimento na prevenção e na doença – veio reduzi-lo substancialmente, pondo em causa a relação de proximidade e de confiança que sempre deve estar presente.

Se avaliarmos a proporção entre o número de técnicos de saúde e o de outros profissionais por cada instituição ao longo dos anos, facilmente poderemos confirmar que esta relação se tem alterado significativamente em benefício dos segundos. Quais os constrangimentos que impedem que se tomem medidas para promover a humanização dos serviços de saúde?

Antes de mais, é essencial não padronizar cegamente e estabelecer tempos aceitáveis para atendimento em cada especialidade. Logo depois, há que libertar os diversos profissionais de saúde de tarefas acessórias e não fundamentais para o objetivo principal da sua atividade, dando-lhes os meios suficientes e imprescindíveis para o bom desempenho da mesma.

Afirmado desta maneira, a solução parece fácil de encontrar. Contudo, a situação é bem mais complexa e resulta das profundas alterações na relação médico-doente verificadas nas últimas décadas resultantes principalmente das grandes transformações sociais, dos avanços da ciência, do acesso generalizado à informação e da maior autonomia dos cidadãos.

Na realidade, as mudanças na sociedade têm marcado de forma relevante o modo de encarar os serviços de saúde. A velocidade com que se vive nos dias de hoje não se compadece com tempos de espera mais ou menos prolongados e não falta quem pense que a ciência e o dinheiro são capazes de tudo resolver. Não há tempo para estar doente e muito menos para aceitar a inexorabilidade das surpresas que muitas vezes a vida reserva.

No mesmo sentido, as alterações demográficas conduzindo a uma sociedade cada vez mais envelhecida levam a que seja necessário adotar políticas que protejam os idosos com o propósito de lhes proporcionar uma vida digna e saudável e isso, como é sabido, está bem longe de ser alcançado. As múltiplas condicionantes da vida moderna fazem com que não seja possível manter a família alargada sob o mesmo teto e a obrigue a colocar os mais velhos em residências e lares onde muitas vezes as condições, neste e noutros aspetos, estão longe do desejável.
Estas serão por certo algumas das causas da desumanização na Saúde tão propalada no tempo presente.

Outro importante fator de empobrecimento dessa mesma relação e a principal razão que leva a saúde a ser encarada como outro qualquer bem num assomo de puro mercantilismo é a prática de uma medicina defensiva por parte de muitos profissionais, com origem na quebra de confiança instigada por quantos pretendem destruir a relação médico-doente, o que encarece a saúde e acarreta outro tipo de custos dificilmente mensuráveis
Neste simples exercício numa matéria tão sensível para a maioria do povo português, esquecer os maus profissionais ou todos aqueles que erraram na vocação seria uma desonestidade e um ato de ilegítimo corporativismo. Porém, é importante nunca confundir o pequeno punhado de areia com o imenso areal.

Acredito que a prometida boa colaboração entre o novo bastonário, Miguel Guimarães, e o Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, possa dar os frutos desejados, não só na promoção de mais humanização, mas também noutras áreas onde os recursos escasseiam.


Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira
DM

DM

14 fevereiro 2017