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Hospitalidade cristã nas celebrações litúrgicas – 108

A segunda grande característica de uma comunidade cristã missionária e acolhedora é a da hospitalidade, seguindo aliás as palavras de Cristo em Mt 25,35 : «era peregrino e me acolhestes». Mas hospitalidade não significa ser amigável apenas com os nossos amigos e as pessoas que pensam e falam como nós, mas estender a mão ao estranho. A celebração eucarística não pode ser uma experiência privada e quase anónima, que considera quase irrelevante dar as boas vindas a um estranho. A hospitalidade é responsabilidade de toda a comunidade que habitualmente se reúne, e não apenas de uma pequena equipa ao fundo da igreja a dar as boas vindas às pessoas que vão chegando para a celebração. O padre James Mallon conta uma experiência pessoal de uma participação numa eucaristia numa paróquia distante em que se apresentou vestido como todos os outros cavalheiros. Foi recebido com deferência à porta da igreja e levaram-no até ao lugar num determinado banco onde havia assentos livres. Eis que uma senhora idosa, que estava no início do banco, não apenas não se chegou para o meio para dar lugar a quem vinha, mas permaneceu sentada sem se levantar para permitir que o hóspede e um seu amigo pudessem passar para ocupar os lugares vazios. E enquanto eles procuravam passar por detrás dela, com todo o cuidado, foi-os olhando de soslaio. Notou ainda que os sorrisos dirigidos aos outros assistentes não foram correspondidos, pelo que se sentiu como que envergonhado e nada bem acolhido. Essa má experiência mais ânimo lhe deu para insistir na sua paróquia a fim de que as pessoas saibam ser realmente acolhedoras. E sendo certo que um sorriso cobre uma multidão de pecados, o sorrir, em Igreja, não é simplesmente uma boa prática social. Tem raízes teológicas profundas, já que Paulo, na Carta aos Efésios 4,4 nos convida a alegrarmo-nos sempre no Senhor. Na Evangelii Gaudium 10, o papa Francisco diz que «um evangelizador não deveria ter permanentemente uma cara de funeral». Alguém escreveu com razão: «Se Jesus está no teu coração, por favor fá-lo saber à tua cara». E como isto é decisivo e importante, pois há tanta gente, a começar pelos leitores, que, em vez de rosto de gente salva e alegre pela boa notícia que são chamados a proclamar, deixam transparecer um rosto carregado e fechado, como se o ministério que desempenham fosse um fardo a carregar e não uma missão que enche de alegria. Celebrar uma festa, como deve ser toda a eucaristia, é sempre uma experiência que só pode ser alegre. Numa homilia de 13 de Novembro de 2013, o papa Francisco insistiu em que, em igreja celebrante, não podemos ter a atitude de quem diz e pensa que só deve atenção a 2 ou 3 pessoas. «Isso não se pode fazer em Igreja. Ou participas plenamente, ou ficas fora. Não podes ficar apenas com o que te interessa: a Igreja é para todos, a começar pelos mais marginalizados da sociedade. É Igreja de todos e para todos». A hospitalidade tem a sua pedra de toque no acolhimento aos mais pobres, aos que vestem mal ou cheiram menos bem, àqueles que parecem não ter um comportamento respeitável nem oferecer segurança. Como não se cansa de dizer o papa Francisco e o comprova com os actos: A Igreja existe para os mais marginalizados. Felizmente, na comunidade a que presido, já por diversas vezes fui testemunha desse acolhimento benévolo por parte de algumas pessoas. Uma das cenas mais comoventes foi a de uma pobre senhora, extremamente devota da Virgem Maria e cheia de preocupações com um filho muito doente. Depois de passar a mão pela base da imagem de Nossa Senhora, começou a chorar convulsamente, pois não via que houvesse possibilidade de o filho escapar da morte, como de facto veio a acontecer passado pouco tempo. Quase a chegar ao fundo da igreja, três senhoras aproximaram-se e dirigiram-lhe palavras de ânimo e esperança. Eis senão que ela começa a cantar o «Queremos Deus», «Santos, Anjos e Arcanjos», no que foi acompanhada pelas senhoras que tinham ficado em acção de graças mais prolongado, mas sentiram que a pobre e desditosa velhinha precisava de carinho. Com espanto deste servidor que, maravilhado, observava tal gesto de acolhimento e acompanhamento, a velha senhora começa a cantar o «Tantum ergo sacramentum». Pensei que iria errar na pronúncia das palavras latinas. Qual quê? Tudo certinho, de princípio a fim, na letra e na música! E a senhora acalmou e agradeceu o acolhimento. E eu agradeci por ter sido tão bem acolhida pelos membros presentes que nela viram o rosto de Deus mendigando carinho.
Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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3 fevereiro 2018