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Hiperdigitalização em contexto de conflito

Há décadas que Pierre Lévy, um dos mais respeitados pesquisadores na área da cibernética, dainteligência artificiale da internet, escreve sobre assuntos como o teletrabalho, asfake news, arealidade virtuale as mudanças que as novas tecnologias provocam na cultura. Quando no começo da década de 1990 elucubrava sobre o indefetível advento de uma superestrutura universal de comunicação e troca de dados, a internet ainda estava no início. As suas obras, tais como, As tecnologias da inteligência,A inteligência coletiva,Cibercultura,Ciber democracia, abrem-nos às imensas oportunidades das sociedades digitais, mas também sobre os usos e abusos que o poder político pode fazer da internet e sobre um eventual triunfo de um tecnopoder mundial no qual o que ele chama de Estados-plataformas (Apple, Microsoft, Google, Facebook, Amazon etc.) que já estariam acima dos Estados-nação.

O poder das macro multinacionais foi desenvolvido pela professora Zuboff de Harvard, na qual revela o que chama de “capitalismo da vigilância”, um projeto global de modificação do comportamento que ameaça transformar a natureza humana neste século, do mesmo modo que o capitalismo industrial alterou o mundo do século XX. A ameaça que paira não é já a de um «Grande Irmão» totalitário, mas a de um arquiteto digital que opera em função dos seus interesses. Zuboff pensa que a sociedade atual corre o risco de se transformar numa colmeia totalmente interconectada e controlada, que nos seduz com a promessa de uma vida fácil e consumidora, numa conjuntura crítica do confronto entre o poder das empresas de alta tecnologia, reforçado pela crise pandémica, as sociedades e os governos democráticos. A questão reside em saber se controlaremos a informação e as máquinas ou se nos deixaremos dominar por elas.

No contexto da agressão militar à Ucrânia, é interessante repristinar o tema da manipulação, mas regressando ao “Big Brother” do estilo orwelliano original, na área político-militar. Voltando a Levy, este esclarece que defende o uso ético e socialmente positivo da tecnologia, enfatizando o aumento evidente das capacidades cognitivas, por exemplo, o aumento da capacidade de memória através da sua externalização nos meios digitais: hoje em dia se não nos lembrarmos de algo no momento, digitamos no Google ou outro motor de busca e acedemos à memória. José Luís Borges já falava da biblioteca como depósito de memória infinita.

Mas não será que desde que existe linguagem, há mentira e manipulação, como parece resultar do diálogo de Fredo de Platão, interrogando-se quanto ao que a descoberta da escrita tinha de negativo pois “provocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória, porque confiados na escrita, é do exterior, por meio de sinais estranhos, e não de dentro, graças a esforços próprios, que obterão as recordações.?

Os serviços secretos das grandes potências sempre trataram de manipular os dados, fornecendo até mensagens falsas ao adversário, na expetativa que adotassem uma conduta conducente ao objetivo pretendido, como é o caso paradigmático da invasão da Normandia no Dia D. A questão é que a quantidade cada vez mais crescente e não estruturada de dados que são gerados a cada segundo por efeito da Internet – Big Data – permite a análise sistematizada dos comportamentos individuais e o aproveitamento das redes sociais. O escândalo da Cambridge Analítica e a experiência do fotógrafoEgor Tsvetkovdo Findface são exemplares.

Revertendo à situação geopolítica europeia, não restarão dúvidas do esforço de Putin no sentido de emitir informação falsa – mediante a publicação de milhões de tweets, por ex.: através de perfis falsos, especificamente dirigidos a grupos sectarizados e previamente identificados pela recolha e sistematização dos respetivos perfis –, influenciando a opinião pública interna e externa e mormente os jovens no sentido que a sua ação é meramente defensiva, acrescendo à proibição da divulgação de informação verdadeira.

A solução não está no neoludismo, que se opõe ao desenvolvimento tecnológico e científico, pois não há caminho de regresso à idade das cavernas. Um grande passo foi dado com o RGPD, aguardaremos os resultados da sua implementação. Mas o problema persiste quando não há possibilidade de fiscalizar um Estado autocrático, no qual sucumbiu o sistema de “check and balances”, como é o caso da Rússia dos dias de hoje.


Autor: Carlos Vilas Boas
DM

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16 março 2022