twitter

Haverá Chebnas hoje?

1. Está no livro de Isaías (22, 15 e seguintes) e foi recordado na missa do último domingo. Chebna, prefeito do palácio do rei Ezequias (716-687 antes de Cristo), foi substituído por Eliaquim. O prefeito do palácio, uma espécie de primeiro-ministro, tinha autoridade sobre a cidade-templo de Jerusalém. Tinha a mordomia do palácio real e a prefeitura da cidade. Administrava os bens do soberano. Fixava a abertura e o fecho das portas. Incumbia-lhe a tarefa de admitir ou recusar as pessoas diante do rei e a responsabilidade da sua hospedagem. Foi substituído. Porquê? O Profeta interpreta a mudança como um castigo da megalomania de Chebna que, em tempo de crise, mandou construir para si um sepulcro no alto e cavou, também para si, um mausoléu na rocha. 2. O facto sugere uma reflexão sobre o uso do poder. Poder que deve ser exercido como serviço à comunidade. A autoridade, seja a que nível for, é um serviço a favor dos irmãos. Deve ser exercida com amor e tendo em vista o bem comum. Quem foi investido em autoridade deve exercê-la para servir e não para se servir. Quem abusa do poder – usando-o de forma negligente ou egoísta, pondo-o ao serviço dos seus interesses e/ou dos interesses dos do seu grupo – não deve permanecer no cargo. O bem comum exige seja destituído e substituído por quem saiba exercer convenientemente aquelas funções. 3. É dever de quem manda ter a coragem de substituir os que não exercem bem as funções que têm a obrigação de desempenhar. Se tal coragem não existir pode acontecer uma de duas situações: manter tudo como está, apoiando tacitamente a incompetência, a negligência, o oportunismo, a corrupção, o compadrio; mudar as pessoas para melhor (promoveatur ut removeatur, como se dizia em linguagem eclesiástica, que é como quem diz: dá-se-lhes um pontapé para cima), como que premiando os referidos vícios. Quem manda tem o dever de intervir. E se quem manda também tem culpas no cartório, também mete a mão no prato, é o primeiro a abusar do poder que lhe foi conferido? O bem comum exige que os de cima tenham mãos livres e limpas. Tenham uma conduta exemplar. 4. Recordei um facto o corrido vários séculos antes de Cristo. E hoje? Não haverá Chebnas muito preocupados com o seu bem-estar, a viver à grande e à francesa, alheados das reais necessidades do povo que de deviam servir? Não haverá Chebnas a servirem-se do poder para fazerem prosperar os próprios negócios ou os negócios dos familiares e dos amigos? Não haverá Chebnas a colocarem os interesses do partido ou da ideologia acima do bem comum? Não haverá Chebnas que não só não substituem os incumpridores como até lhes dão cobertura ou fazem leis à medida? 5. Quem exerce o poder tem obrigação de prestar contas à comunidade com o máximo de transparência. Deve haver mecanismos que controlem de verdade a forma como o poder é exercido. É preciso que os de baixo tenham a possibilidade de denunciar os abusos dos de cima e de alertar para os males de que são vítimas. Que se não adote o princípio de que o chefe tem sempre razão. Que as pessoas possam apresentar as suas reclamações, que estas sejam devidamente analisadas e se faça justiça. 6. A megalomania de Chebna não pode levar a pensar na forma como se gerem dinheiros da comunidade, em obras de fachada, em gastos com o espavento e o luxo, em obras faraónicas de elevado custo e reduzida utilidade, na impunidade da leviandade de certos gestores? Não poderá levar a pensar em despesas que se fazem só para mostrar aos vizinhos que se é alguém? Não terá acontecido de fecharem empresas porque o que se deveria ter investido na sua modernização se gastou em vivendas, em quintas, em automóveis de luxo…?
Autor: Silva Araújo
DM

DM

27 agosto 2020