twitter

Governo acusador

Bem sei que é chover no molhado voltar a temas como os dos fogos ou das urgências. Mas, a verdade é que eles continuam a encher os noticiários e as páginas dos jornais e não pelas melhores razões, por estarem resolvidos ou em vias de ficarem, mas pelo seu contrário. É precisamente por estar longe a sua resolução que convém continuar a insistir neles, mesmo que isso não seja nada original. Infelizmente, alguns problemas perpetuam-se sem que os responsáveis o assumam.

No Ministério da Saúde, quem manda parece não não perceber por que não se consegue atrair médicos para os quadros. Concursos atrás de concursos e nada. Os mandantes podem ser desresponsabilizados? Não, de forma nenhuma. O problema não é de agora e já foi dito a todos qual seria a solução. Fizeram orelhas de mercador, ao jeito de quem não quer ouvir ou a quem não convém falar do assunto, e o problema até se tem agravado. Caros eleitores, eu sei, vocês sabem e os governantes também sabem qual é a solução, não é verdade? Exacto, a resposta é essa mesma: o Governo tem de chegar-se à frente e não quer fazê-lo, pondo em causa o Serviço Nacional de Saúde. Alguns até atiram que o Executivo quer desmantelar o Sistema, mas será exagerada essa conjectura. Agora que há incompetência e irresponsabilidade, isso tem sido evidente. As urgências obstetras vão continuando a fechar intermitentemente por falta de equipas médicas, com uns hospitais mais afectados do que outros, mas com as grávidas a temerem que algo possa não correr bem.

Existe um defeito antigo que é acusar os antecessores por qualquer coisa que não esteja bem ou por resolver. Quando faltam argumentos acusa-se, o que não é responsável, nem bonito. Com António Costa isso tomou uma proporção desmedida, apesar de não ter sentido e de soar a falso. Nos últimos 27 anos, o Partido Socialista governou durante 20 e o Partido Social Democrata apenas 7. Desde 1995, o partido da bandeira laranja só governou em situação de emergência, por causa de défices excessivos de governos socialistas; entre 2002 e 2004, depois de seis anos de António Guterres e entre 2011 e 2015, depois de José Sócrates.

As desculpas socialistas não pegam, mas o vício está tão entranhado que o discurso não muda. Isto vale para a economia, para a saúde, para todas as áreas da governação. Portugal tem sido ultrapassado por muitos países, mas Costa não o admite. A responsabilidade é quase toda de governos socialistas, mas, caras de pau, os responsáveis do partido da rosa têm sempre o dedo indicador em riste. São os outros os responsáveis!

Veja-se o caso da necessidade de construção do novo aeroporto de Lisboa ou da falta de solução para o volume de tráfego de passageiros. O ministro das Infraestruturas, que não foi desmentido por António Costa, considera que os sociais democratas não se podem livrar do problema que o próprio tem em mãos. Como se atreveu a tamanho desaforo quando sabe que os governos sociais democratas, desde há pouco mais de um quarto de século, foram de emergência para resolver problemas de défices excessivos, logo de restrições financeiras? Quem pensaria construir uma casa quando está numa situação de desemprego? E quem lhe emprestaria o dinheiro?

Até nos fogos, o governo ergue o indicador para acusar. Não é o SIRESP que falha, são os utilizadores do equipamento!… Quando será que os responsáveis governativos assumem os seus erros? Estou convencido de que António Costa não vai deixar nunca. De jeito nenhum. Nem que uma porca amestrada torça o rabo.

A história há-de continuar a escrever-se. O livro sobre o período pós Revolução de Abril já tem vários capítulos. Guterres e José Sócrates têm um cada: o pântano e a troika, respectivamente. António Costa também terá o da sua governação e arrisco a intitulá-lo: o governo acusador; mas poderá incluir outros epítetos.


Autor: Luís Martins
DM

DM

9 agosto 2022