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Futebol feminino: um campo para a igualdade

O facto de uma das minhas netas – a Inês – ter revelado desde muito cedo gosto e jeito para o futebol e jogar futsal integrada numa equipa de crianças (benjamins) do A.D.C Nogueiró-Tenões, em que é a única menina, sem quaisquer complexos e sem que a família ou alguém erguesse ou erga preconceitos baseados em diferenças de género, fez-me pensar que o futebol pode ser um meio eficaz para permitir que as mulheres possam ser vistas e tratadas como iguais aos homens, quebrando barreiras e evitando a marginalização que durante séculos as apartou das coisas tidas por próprias do mundo masculino, designadamente do desporto.

Bem sei que a diversidade física entre homens e mulheres determina que o futebol feminino tenha um estilo e performances distintas do masculino. Porém, do ponto de vista técnico, pode afirmar-se, sem risco de errar, que as mulheres podem jogar tão bem futebol quanto os homens, havendo até estudos científicos que corroboram tal afirmação.

No sentido de que, até quase meados do século passado, houve uma enorme diferenciação entre homens e mulheres em termos de prática desportiva (e não só), ditada por uma educação e normas sociais que fixavam muito bem os comportamentos que eram próprios das meninas e dos meninos, o futebol foi sem dúvida uma questão de género, bem patente no facto de, há quase mais de um século, ser jogado por homens, enquanto as mulheres só se iniciaram na modalidade – e muito timidamente – há cerca de 50 anos.

O futebol foi assim, na sua génese, um desporto exclusivamente masculino, cuja agressividade o tornava pouco adequado à fragilidade e delicadeza das mulheres. Como então se dizia, o futebol não era coisa de mulher. Era uma actividade desportiva inapropriada à sua natureza.

Felizmente, os tempos e as ideias mudaram. As sociedades evoluíram. Datam da década de 70 do século passado os primeiros torneios internacionais de futebol feminino. Em Portugal, a Federação Portuguesa de Futebol só na época de 1987-88 criou o principal escalão do sistema de ligas de futebol. E a 1ª edição do Campeonato do Mundo da modalidade foi realizada na China, em 1991, sob a égide da FIFA, com apenas 12 selecções. E se há países que têm ligas profissionais de futebol feminino, outros há que pura e simplesmente vedam às mulheres a prática deste desporto, como sucede em muitos países muçulmanos.

Mas, no passado mês de Fevereiro, a história do futebol ficou marcada por um facto inusitado: na Arábia Saudita, um dos países mais fechados aos direitos das mulheres, pela primeira vez, uma selecção feminina foi autorizada a disputar um torneio internacional, com as selecções das Maldivas e das Seychelles, em dois encontros que venceu! Desde 2018, o Governo saudita tinha autorizado a entrada das mulheres nos estádios e pavilhões para assistirem às diversas competições desportivas. E, ao que se sabe, prepara-se agora para autorizar as suas cidadãs a praticar qualquer outro desporto, em plena liberdade.

Eis como o futebol, marcado desde os seus primórdios por um acentuado pensamento machista, foi capaz de se tornar campo aberto para a igualdade!

É claro que no desporto, como na economia, há ainda um longo caminho a percorrer no sentido de uma afirmação igualitária de homens e mulheres, designadamente ao nível remuneratório. Mas quero crer que, com melhor qualidade de jogo, com maior atenção dos média, com mais apoios e mais investimento e com o consequente aumento do interesse público na modalidade, o futebol feminino pode tornar-se paradigma e meio de reconhecimento pleno dos direitos e liberdades das mulheres, em tudo idênticos aos dos homens, seus congéneres.

Como sói dizer-se, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…


Autor: António Brochado Pedras
DM

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18 março 2022