twitter

Foi uma boa vindima

1.“Foi uma boa vindima que promete bom vinho…”, assim se expressou o Papa Francisco no final do Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, que decorreu, em Roma, entre o dia 3 e 28 de Outubro e no qual participaram também 30 jovens também de todo o mundo. No documento final, que mostra vontade real de mudança, lê-se que o “Sínodo quer que se avance para uma igreja participativa e corresponsável”. Sendo assim, então esta é a hora propícia para o fazer, enquanto a memória está quente e a fermentação do mosto dessa colheita não arrefece, para que se venha a fazer um bom vinho e ele ajude a igreja a tornar-se mais jovem e mais dinâmica. É que, muitas vezes, a intenção de avançar esbarra na inércia do ir esperando, para ver como acontece… 2. E como avançar com a participação dos jovens para uma igreja participativa e responsável? Naturalmente, respeitando o modo de ser dos jovens, que são espontâneos, participativos, directos, amam a liberdade e dificilmente aceitam um modelo burocrático planeado de acção, recusam o imobilismo, são alegres, sem medo das crises pois elas significam sempre um sinal de crescimento e um desafio de aperfeiçoamento permanente da condição humana. Assim, a primeira condição para avançar pressupõe a disponibilidade de diálogo e de mudança. Porque até a Bíblia usou a linguagem de mudança (“eis que eu faço novas todas as coisas”) para dizer que é desse modo que a felicidade se renova. Mudar significa rejuvenescer. E juventude é a palavra mágica dos tempos de hoje. Nunca conheci ninguém que dissesse que gostava de ser velho ou ser tratado como velho. A velhice é a fase final da vida e aceita-se como tal porque não há outra hipótese; mas, ninguém gosta de ser velho. E a igreja também não pode ser percebida como velha, porque senão deixa de ter interesse para os mais novos…Os jovens vivem o presente com os olhos no futuro. 3. Há alguns anos, decidi frequentar um seminário intensivo de 8 dias, orientado pelo Prof. Imberdis, da Universidade de Nanterre, especialista em pedagogia dos jovens na área religiosa, para perceber melhor como dialogar com os jovens que, por natureza, contestam o estado actual de proceder como forma de se auto-afirmarem e com isso contribuem para a evolução das coisas. E decidi frequentar sobretudo por saber que o afastamento dos jovens, em França, é senão maior do que entre nós, pelo menos tanto como em Portugal. Os inscritos eram sobretudo pessoas com responsabilidades educativas institucionais. Depois de uma rápida apresentação mútua dos participantes, a minha dúvida era como iria o moderador proceder para agilizar aquelas mentalidades mais ou menos seguras de que eles eram os que sabiam e os jovens os que tinham que aprender com as suas orientações. Nessa concepção psicológica dualista, os que sabem e os que não sabem, que em termos de poder se traduz por os que mandam e os que obedecem, faltava espaço para diálogo e liberdade de aprender. Claro que os institucionalistas acharão que isto é romantismo… Porém, a verdade é que só quem está disposto a aprender será, depois, capaz de saber ensinar. Imberdis foi subtil para não ferir susceptibilidades pessoais: em vez de criticar qualquer atitude de rigidez, fez com que fosse o próprio a descobri-lo. Começou por uma breve exposição geral de princípios de pedagogia dos jovens e, de seguida, convidou a respeitável assembleia a participar numa experiência de brainstorming, conhecida técnica criada por Osborn em 1953 (brainstorming pode-se traduzir em português por “tempestade cerebral” ou “tempestade de ideias” e é uma técnica que passou a fazer parte da Dinâmica de Grupos, visando explorar a potencialidade e criatividade do sujeito, em grupo, ao serviço de objectivos propostos e comumente aceites). Com essa técnica, em que os grupos se faziam de improviso, 3 versus 3, conforme os colegas de lado e da frente e eram praticamente sempre diferentes, conseguiu esbater a convicção de estatuto e ajudou a criar mais flexibilidade interior, atenta às diferenças e respeitando o outro, apesar das diferenças de cultura ou de linguagem. Ajudou também a reformular interiormente a concepção de poder como serviço e a interiorizar melhor as regras básicas do diálogo. Talvez tenha sido esta a principal mensagem que aprendi: para dialogar com os jovens, em matéria de convicções de fé, é preciso abertura de espírito, flexibilidade, saber ouvir, confiança, diálogo, despir-se da auto-suficiência de quem pensa que sabe tudo, de ideias feitas e de modos de proceder que já não dizem nada aos tempos de hoje. Levar apenas a certeza da sua convicção pessoal em questões decisivas. Quanto ao resto, o caminho faz-se caminhando, na certeza de que não vai sozinho… (Nota: o autor não escreve de acordo com o chamado Acordo Ortográfico).
Autor: M. Ribeiro Fernandes
DM

DM

2 dezembro 2018