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"Fogosas" comemorações de Amália, no Fundão

1 – Os 10 0 anos de nascimento de Amália e 50 da morte de Salazar}. Curiosamente, neste ano maldito de 2020, dominado pela influência sanitária e economico-financeira da peste asiática do Corona-vírus 2019, celebram-se em Portugal (obviamente entre muitas outras datas) os 100 anos de Amália e os 50 da morte do dr. Salazar, ocorrida em 1970. Esta última terá sido devida a acidentes cardio-vasculares na sequência da célebre "queda de uma cadeira" (que não estava no sítio, versão clássica), a que se seguiu uma cirurgia conduzida por um médico oposicionista. Ou, segundo a tese (que tem poucos meses) do meu não muito distante parente por afinidade arq.º José Saraiva (sobrinho do prof. Hermano Saraiva), derivada duma queda na banheira, em 1968. Nesse verão de 70, eu estava em França com os meus pais, a viajar de "roulote" e vem um francês, muito contente e com ar de parvo, e pergunta "então, ainda não sabem? O vosso ditador morreu".

2 – As origens familiares}. Têm sido ultimamente publicados livros e artigos de fundo sobre Amália da Piedade Rodrigues, a sua vida, as suas relações e as suas origens. Livros para os quais remeto, dada a quantidade de detalhes interessantes que aí são, às vezes pela li! vez, revelados. Ela era filha de pai e mãe originários da Beira Baixa, mais precisamente do concelho do Fundão (numa entrevista à rádio, ela diz que

"também de Castelo Branco"). As aldeias dos avós são na "Cova da Beira"; uma é Souto da Casa (na encosta da Gardunha, junto ao Fundão); a outra, Alcaria, na outra ponta do vasto e formoso vale. A mãe é Lucinda da Piedade (Rebordão); e daqui o parentesco com a jovem e bonita cantora Fábia Rebordão. A própria mãe Lucinda teria uma bela voz, como recorda Celeste Rodrigues (1923-2019), a irmã fadista a quem Amália fez sombra toda a vida e que, como Fábia, tinha olhos azuis; Celeste casou em 53 com o actor oposicionista Varela Silva e em velha, foi amiga de Madona. O pai de Amália era um carpinteiro e músico amador, Albertino Rodrigues.

3 – Os mistérios do seu nascimento}. Hermano Saraiva, Ant.º José Saraiva (e seu primo Ant.º Guterres) são das Donas, ali ao lado do Fundão. O extraordinário músico José Afonso era de Ponte de Lima (pelo lado da mãe) e do Fundão e Covilhã, pelo lado do pai. Segundo artigo recente de outro Saraiva (o investigador beirão Arnaldo Saraiva), Amália teria mesmo nascido na região do Fundão. São terras que eu próprio tenho visitado com frequência. Há anos, houve uns agricultores que me disseram que ela tinha nascido por ali, já não me lembro onde, à beira de uma fonte. Há muitos anos, quando eu ainda estudava em Coimbra, deu-me para ir de carro à Senhora do Almortão (ldanha); e em Silvares (Fundão) dei boleia a um rapaz local (o "Alentejano", que só vi mais 1 ou 2 vezes) que assegurava que Amália também tinha raízes naquela aldeia. Silvares fica bem perto de Dornelas do Zêzere, onde eu nunca estive. E que é a terra do saudoso arcebispo D. Eurico Dias Nogueira, eclesiástico que tinha ainda viva memória de um meu bisavô, famoso cientista químico católico. Há quase 20 anos, D. Eurico teve a gentileza de telefonar para o pároco de Tinalhas, em Castelo Branco (o já falecido e notável padre Terezo Varão) para mo apresentar, a meu pedido.

4 – Oficialmente nascida na freg.a da Pena, Lisboa}. Em data incerta do ano de 1920, entre 1 de Julho (eu nasci a 4...) e 23 de Julho (data do seu registo, em Lisboa). O baptismo será em Julho , mas de 1921, na igreja do Fundão, para onde os pais tinham regressado (para Alpedrinha, onde viveu Celeste). Com menos de 2 anos, Amália já está em Lisboa (Alcântara) na casa modesta dos pais da mãe. O resto “é conhecido”.

5 – Amália nunca “mordeu a mão de quem lhe deu a esmola”). Casada em 2!! núpcias (apenas em 1961) com um decidido apoiante de Delgado (um dos Seabras, da Anadia, engenheiro); e tendo contactado ao longo do vida com inúmeros colegas esquerdistas do mundo do espectáculo, Amália nunca foi mal agradecida ao velho Regime que a apoiou e mitificou quase como um “símbolo da raça”; que a galardoou e que fez dela actriz de cinema. Daí que os anos que se seguiram a 1974, não tivessem sido os melhores da sua vida...

6 – Há outras fadistas tão boas como Amália...). Refiro-me sobretudo a Hermínia Silva (que Amália tratava por D.a Hermínia), Teresa de Noronha, Argentina Santos, Maria Clara, Lucília do Carmo, Fernanda Maria, M.a Ana Bobone... A voz fresca de Amália, na juventude, era extraordinária. Embora algo triste, como os seus olhos escuros. Compensados por uma cabeça bonita e um nariz correcto. Com os anos, os seus agudos torna ram-se contudo, demasiado guturais e estridentes. E lamentavelmente, foram modelo para muitas fadistas posteriores, por pensarem que aquilo é que era a “ essência do fado” ...

7 – As “comemorações” dos incendiários. essas começaram pela Covilhã e Fundão). Decerto em homenagem a Amália. Primeiro foi o grande incêndio de Sobral de S. Miguel, nos contrafortes orientais da Estrela. Depois, os de Bogas e Janeiro, lá perto. E

a festa estendeu-se a Valongo, a Chaves, Moncorvo, Lindoso, Mirandela, Valpaços, Vilar de Lomba (Vinhais), Seixo de Manhoses (Vila Flor), monte Picoto (Braga)... E o mais que há de vir. É que amigo não empata amigo e “o resto são cantigas”... Ao trabalho, pois. “Business, as usual”.


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

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17 agosto 2020