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Foge cão que te fazem barão

Frequentemente se ouve por aí dizer de fulano, sicrano ou beltrano que andam a meter a mão e a engordar à custa de todos nós e indevidamente; mas, que é muito difícil provar tais comportamentos, tão complexos são os métodos e os meios que tecem tais mecanismo de enviesamento e engorda. Ora, há coisas tão evidentes que, até, um cego enxerga ou um coxo alcança; por exemplo, se determinado indivíduo ganha xis (x) por mês, governa a sua vidinha e não lhe sobra nada ou tão pouco que nem dá para mandar cantar um cego ou comprar uma raspadinha e tem um vizinho que ganha os mesmos xis (x) por mês e que depois de governar a sua vidinha ainda lhe sobra para com a família passear, ir todas as semanas ao cinema, frequentar salões de beleza e restaurantes e ainda vestir segundo os ditames da moda, o que se pode dizer? Que lhe caíram os euros sobrantes do céu ou que o seu dinheiro é fêmea e o do vizinho é macho? Pois é, não me façam rir com historinhas de prémios de lotaria ou de heranças dos brasis; até o povo na sua simplicidade e sabedoria caseira costuma dizer que quem cabritos mata e cabras não tem de algum lado lhe vem; e, então, por vezes, a razão das coisas está tão perto que basta olhar e ver com olhos de ver ou tropeçar nela ao dobrar da primeira esquina. Todavia se o olhar e o ver não resolvem – o assunto à maneira e, obviamente, escasseiam os meios para meter na ordem os fulanos, sicranos e beltranos vai sobrando necessidade e urgência de que alguém lhes faça o que o Mestre fez aos vendilhões do Templo; e a razão para tal atitude radicou somente no desprezo e desrespeito demonstrados pela Casa do Pai. Agora, transportemos os factos para a nossa vida democrática, onde a falta de bons costumes, de justiça social, de ética e de moral republicanas são evidentes; e a reclamar medidas urgentes dos poderes legislativo, executivo e judicial para restituir às instituições públicas a dignidade, a credibilidade, o rigor e a transparência claramente diminuídos e, até, em muitos casos, perdidos. Em 1925, nos finais da 1.ª República, em pleno Tribunal Militar, Óscar Carmona e, no verão de 1974, nos alvores da Democracia, António de Espínola, em discurso para a Nação, ambos declararam. A Pátria está doente; e esta tomada de posição foi exigida, devido às vicissitudes, desmandos e ausência de moral e ética que varriam o país e, no geral, atingia a vida da maioria do povo. Ora, esta declaração de guerra dos dois militares bem pode, hoje, ser novamente proclamada à Nação; e, obviamente, porque os rumos que a Democracia tem levado trazem a Pátria doente e leva o povo a viver amargurado, explorado, humilhado, ofendido e infeliz, a fazer lembrar os tempos finais da Monarquia, onde a corrupção e a imoralidade instalada até consentia a promoção social dos corruptos e corruptores com a atribuição de títulos de nobreza, levando o povo, parodiando a situação, a exclamar: foge cão que te fazem barão. Pois bem, ao longo dos 44 anos que levamos já de vida democrática, tantas fraudes, evasões fiscais, fugas ao fisco, lavagens de dinheiro e corrupção invadiram, como verme repelente e fossilizado a vida pública do país, destruindo os alicerces da nacionalidade, que a maioria do povo acabou por desvalorizar e descrer da política e, consequentemente, da maioria dos políticos, dos governantes e das instituições; e, mais grave ainda, é que muitos dos corruptos e corruptores têm sido inocentemente condecorados com honrarias, medalhas e comendas pelos órgãos do poder, a lembrar o tal foge cão que te fazem barão. Ademais, tardando ou não sendo capaz, por variadas razões alheias à própria instituição, de restituir à Pátria os valores da honra, da dignidade e da verdade perdidas, a Justiça tem sido frequentemente esvaziada das suas competências instrumentais e desacreditada na sua superior atividade de decisão e julgamento; o que desgraçadamente deixa o povo mais frágil e à mercê da demagogia, da exploração, da mentira, do logro e do verme nojento e repelente da corrupção. Mas, perante este estado doentio da Nação, que os políticos bem-intencionados e povo nunca esqueçam e pratiquem o que dizia Salgado Zenha: no plano moral que é o que interessa só é vencido quem desiste de lutar. Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
DM

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30 janeiro 2019