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Fátima, sempre foi, já é e será sempre mais (9)

Vou recuar um pouco em relação à cronologia dos acontecimentos do texto anterior para realçar a origem das Misericórdias, uma obra que não para de crescer para bem de todos nós. A Confraria da Misericórdia, fundada em Lisboa no dia 15 de agosto de 1498 (Assunção de Nossa Senhora, data, como já vimos, muito marcante na mente dos portugueses), ano em que chegavam à Índia as naus portuguesas.

Foi mais uma obra, além do Hospital das Caldas da Rainha, criada por D. Leonor de Lencastre (viúva de D. João II e regente por D. Manuel estar ausente em Castela) com os olhos postos na nossa Mãe de Deus, dando abrigo e educação aos órfãos, ajuda aos pobres, pousada aos peregrinos, tratamento dos enfermos, intitulando-a de Nossa Senhora da Misericórdia e que el-rei D. Manuel tudo confirmou e alicerçou, sendo, hoje, uma importantíssima obra de assistência e de caridade, socorrendo e acolhendo todos aqueles que, ao longo dos séculos, têm acorrido às suas inúmeras valências.

A dinastia de Bragança sempre fiel a Maria

A Dinastia de Bragança continuou fiel à devoção a Maria, vincando o voto de D. João IV. D. Pedro II, grande devoto da Virgem Santíssima, todos os sábados visitava a ermida onde estava a imagem da Senhora das Necessidades. Uma vez enfermo, no início do ano de 1705, pediu que lhe trouxessem a imagem, vindo em procissão, pois, na altura, a capela situava-se fora da cidade. Recuperado e agradecido, no dia 28 de fevereiro, fez com que a imagem voltasse à sua ermida, num cortejo solene onde se incorporaram personalidades do reino, Ordens Religiosas e os Conselheiros de Estado que transportaram o andor.

D. João V deu continuidade à devoção do pai. Tudo fez para incrementar, sempre mais, o culto e a devoção a Nossa Senhora, tendo como base a sua fé e a sua entrega à Virgem. Peregrinou pelo Alentejo, cumprindo promessas. A três de novembro de 1716, visitou a imagem de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, homenageando, também, Dom Nuno Álvares Pereira, que mandou edificar a antiga igreja, e o seu avô, D. João IV, que proclamou, ali, no ano de 1646, a Virgem Santíssima como Padroeira do reino de Portugal.

Mandou edificar o magnífico mosteiro (convento) de Mafra dedicado à Virgem Santíssima e a Santo António de Lisboa em que trabalharam 50.000 operários, custando cerca de 120 milhões de cruzados, aproveitando a riqueza da coroa que provinha das minas de ouro e de diamantes descobertas no Brasil.

O Cardeal Patriarca de Lisboa benzeu a primeira pedra em 17 de novembro de 1717, tendo D. João V e a família real assistido à consagração da igreja, pelo mesmo Patriarca, em 22 de outubro de 1730. Em 1720, fundou a Academia Real da História, tendo como primazia investigar a história eclesiástica do reino “Lusitania Sacra” e posteriormente é que escreveria a história secular. Mandou, ainda, criar uma Biblioteca Mariana em que possuísse a coleção completa das obras escritas sobre Nossa Senhora em todo o mundo.

O terramoto de 1755 destruiu esta biblioteca que seria, segundo a obra que estou a ler, “um monumento literário mais assombroso da Basílica de Mafra e uma das grandes maravilhas do culto de Nossa Senhora em Portugal.” Preocupou-se, ainda, incluir, no calendário litúrgico, uma festa, todos os meses, dedicada à Virgem que não conseguiu totalmente, no seu reinado, devido a dúvidas em algumas datas da parte da Congregação de Ritos.

Em 1742, D. João V, atribuindo a cura de uma enfermidade a Nossa Senhora das Necessidades a quem já o seu pai, D. Pedro II, tinha grande devoção, decidiu, como gratidão, comprar a ermida, onde estava a imagem, e toda a zona envolvente, mandando construir um sumptuoso templo e procedeu à construção de um palácio para residir e um convento (hospício) para quem se dedicasse ao ensino da Teologia, das Humanidades e das Ciências.

Em 1910, após a proclamação da República, o palácio ficou vazio e, em maio 1950, foi instalado o Ministério dos Negócios Estrangeiros, tendo, para o efeito, sofrido obras de adaptação.

Logo que D. João V faleceu, a rainha, D. Maria Ana (Mariana) de Áustria, também muito crente e devota de Nossa Senhora, doou à imagem da Senhora das Necessidades o seu anel conjugal e o seu vestido de casamento foi oferecido à Senhora da Saúde.


Autor: Salvador de Sousa
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6 fevereiro 2018