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Fátima, sempre foi, já é e será sempre mais

Continuando a ler a obra, abaixo referida, cada vez mais me convenço da grande religiosidade dos nossos antepassados. A morte de D. Fernando, em 22 de outubro de 1383, que abalou a nossa independência, avivou, ainda mais, a aliança dos portugueses à Virgem Santíssima. O Mestre de Avis, D. Nuno Álvares Pereira, todos os combatentes e o povo ajoelhavam-se antes e depois dos combates, pedindo e agradecendo a Deus e à Virgem a coragem e os feitos conseguidos. Logo, na batalha dos Atoleiros com os castelhanos, em 6 de abril de 1384, D. Nuno fazia interiorizar nos seus homens duas grandes forças espirituais: Deus e Santa Maria. A sua espada saída do artista (alfageme) de Santarém, segundo a obra que estou a ler, continha uma frase bíblica “Excelsus super omnes gentes Dominus” – o Senhor está acima de todas as nações – continha, ainda, os nomes de Nuno e de Maria. A sua bandeira, dividida em quatro partes por uma Cruz, encerrava, em cada uma delas: Jesus Crucificado, tendo, como que a retratar o Monte do Calvário, duas figuras da Paixão de Cristo, a Virgem e S. João; Santa Maria com o Menino; S. Jorge e S. Tiago. Na preparação da defesa de Lisboa, que foi cercada pelos castelhanos em finais de abril 1384 e que durou quatro meses, D. João preparou a sua estratégia, mas não se esqueceu de pedir a proteção de Deus e da Virgem. Fernão Lopes, na sua crónica, descreve uma visão (…) observada por homens que estavam a guardar as muralhas da cidade. Logo que a visão se apagou, acenderam-se enigmáticas luzes na ponta das lanças dos soldados que vigiavam as torres. «No dia 15 de agosto, à tarde, enquanto o povo estava na Sé para cantar a devota oração de Salve Regina…chegou um mensageiro com boas novas.» Foi confirmada a vitória com a retirada dos castelhanos. Nuno Álvares Pereira, Condestável do Reino, foi nomeado por D. João, após a sua aclamação como Rei de Portugal em abril de 1385, como que a agradecer e honrá-lo pela sua entrega abnegada em defesa deste espaço lusitano. Entretanto, o Rei de Castela, em 8 de julho, entra na fronteira com um numeroso exército, ocupando o castelo de Celorico, avançando em direção ao litoral, chegando a Leiria no dia 12 de agosto de 1385. Os portugueses estavam em Ourém a preparar a sua defesa. D. Nuno Álvares Pereira e D. João I, passando com certeza por Fátima, deslocam-se para Porto de Mós onde, no dia seguinte (13 de agosto), nos espaços perto de Aljubarrota organizam a defesa, aguardando a chegada do exército castelhano. Enquanto isso, durante a madrugada do dia seguinte, “véspera de Santa Maria de Agosto”, ainda de noite, D. João ouve missa e faz as suas orações, confessou-se, comungou, colocou a medalha dos cruzados ao peito e exortou os seus homens a pedir a Deus e à Virgem a força e coragem para o combate que foi travado no final da tarde desse dia. Em pouco tempo os castelhanos foram derrotados e o Rei de Castela foge para Santarém. Provavelmente, no dia da festa da Assunção de Maria, D. Nuno vitorioso vai agradecer a Santa Maria de Seiça, seu Condado de Ourém, pisando, com certeza mais uma vez, os espaços de Fátima. Continua a lutar pela consolidação da independência e na batalha de Valverde, no meio do furor do combate, D. Nuno é ferido, afastando-se do comando, sendo encontrado refugiado no meio de dois penedos ajoelhado a rezar. Foi avisado do perigo, mas ele respondeu: «Amigo, ainda não é tempo; aguardai um pouco e acabarei de orar.» A batalha foi vencida e diz-se que, por agradecimento, foi mandado construir o mosteiro do Carmo. O dia 15 de agosto, Santa Maria de Agosto, era uma data enigmática para D. Nuno. Casou-se com D. Leonor de Alvim em 15 de agosto de 1376; travou a batalha de Aljubarrota em 14 de agosto de 1385; esteve em Ceuta em 15 de agosto 1415… Entregou-se, no dia 15 de agosto de 1423, à oração e recolhimento, recebendo o hábito de donato no seu convento do Carmo (doado aos carmelitas), adotando o nome de Frei Nuno de Santa Maria, abdicando do título de Condestável e doando todos os seus bens. Foi considerado um grande estratega e génio militar português, aclamado por Camões, nos Lusíadas, “ ditosa Pátria que tal filho teve”. Nunca perdeu uma batalha ou um pequeno combate. Quis terminar a sua vida terrena numa cela na companhia apenas de um crucifixo e de uma imagem da Virgem da Assunção. Em 1431, despediu-se do mundo, comungando na Quinta-Feira Santa (Instituição da Eucaristia), na Sexta-Feira Santa adoeceu e no dia 1 de abril, dia de Páscoa, terminou a sua batalha na terra, ganhando a vitória eterna. D. João I faleceu no dia 14 de agosto de de 1433, precisamente quando se comemorava o 48.º aniversário da Batalha de Aljubarrota. São datas, ao longo da história, que nos fazem refletir. Principal fonte destas crónicas: “Fátima Altar do Mundo”, 3 volumes, sob a direção literária do Dr. João Ameal da Academia Portuguesa da História; direção artística de Luís Reis Santos, historiador de arte e diretor do Museu Machado de Castro, Coimbra; realização e propriedade de Augusto Dias Arnaut e Gabriel Ferreira Marques, editada pela Ocidental Editora, Porto, em 1953.
Autor: Salvador de Sousa
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24 outubro 2017