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Fanfarronices

Assim foi ao longo dos anos até que passamos a reclamar aquelas terras como nossa pertença, ou seja, portuguesas. Momento a partir do qual começamos a criar obras literárias sobre a grandeza do nosso império.

Fazendo poemas e cantando-os em apoio aos soldados que para lá foram defendê-las até que foi chegada a hora daquela gente se autodeterminar. Fomos carne para canhão e patriotas dos quatro costados. Por ali morreram milhares a defender a pátria que lhes haviam dito ser a sua. Como altas patentes políticas e militares assim ensinaram ao povo, apesar de, hoje, o renegaram.

É que a revolução de Abril de 74 chegou e era preciso dar o dito por não dito; virar a casaca; mudar de rumo e aninhar-se perante as ameaças dos movimentos de libertação, entregando de bandeja tudo quanto Maria fiou. Num “peguem, não nos chateiem mais e vão-se embora que já estamos com tremor nas pernas de medo pelo que possa vir por aí de ameaças de Moscovo”. Uma vez que o país estava a ser sovietizado por camaradas preparados na ideologia marxista de Leste. Enfim foi o que se sabe com cubanos a sustentarem uma guerra, sobretudo em Angola que durou cerca de três décadas.

O expoente máximo da nossa coragem e valentia ficaria demonstrado, novamente, quando um punhado de gente empenhada e aguerrida, comandada pelo General Ramalho Eanes, o homem do “25 de Novembro”, se meteram por mar fora, dispostos a enfrentarem o inimigo, a fim de libertarem Timor Leste. O navio lá se foi aproximando do território timorense, que havíamos abandonado covardemente durante décadas, depois de lá termos estado. Porém, ao avistarem uma ou duas corvetas indonésias, ao longe e ao primeiro aviso, meteram o rabinho entre as pernas – deram meia volta – e ala que se faz tarde, lá regressaram direitinhos ao ponto de partida. 

Não faltariam exemplos que ilustrassem com mais rigor os “fanfarrões” em que nos fomos tornando. E o mais atual tivemo-lo, ultimamente, quando nos insurgimos, através do Governo português, contra a instalação de um armazém de resíduos nucleares em Almaraz, na nossa vizinha Espanha. Dissemos secas e mecas de repúdio a esse respeito; queixamo-nos aos monarcas espanhóis; protestamos na C.E., para os perigos que daí poderiam advir para Portugal, bem como mobilizamos o ministro que nomeou uma comissão de trabalho para analisar o caso e o no que deu? Deu em que a “fanfarronice” em que somos peritos, mais uma vez, resultou num surreal parecer positivo à instalação do referido armazém. Portanto, deixando os nossos governantes de bico calado e esquecidos das lutas que se travaram contra esse desígnio espanhol. 

É que, segundo o triunvirato – Espanha, Portugal e C.E. – nada há, agora, a temer. Nem os sismos, pois a robustez do projeto é inatacável. Tal como o foi o grande navio “Titanic”, inafundável, que pereceu em alto mar com milhares de pessoas a bordo. E, neste caso, se algo de trágico acontecer, só resta ao Governo mandar a orquestra tocar enquanto as radiações nos forem contaminando. 

Mas, já agora, pergunto: se fosse Portugal a construir a sua Central Nuclear junto à raia, ali para os lados de Vilar Formoso, o que aconteceria? Certamente que logo viria o Rei de Espanha e o seu séquito, acolitado por Bruxelas, exigir ao P.R., Marcelo, o seu imediato desmantelamento. Certo ou errado?


Autor: Narciso Mendes
DM

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8 maio 2017