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Esmola, oração, jejum

O evangelho da Quarta-Feira de Cinzas (Mt 6, 1-6.16-18) coloca-nos perante três práticas judaicas, anualmente apresentadas como sugestões para a Quaresma cristã: a esmola, a oração e o jejum, atitudes que ganham sentido quando “motivadas por uma relação sincera e fiel com Deus e com os demais seres humanos” (Adrian Leske, “Mateo”, in Aa. Vv., Comentario Bíblico Internacional, ed. Verbo Divino, Estella 1999, p. 1161).

Na atualidade, sendo as atitudes as mesmas, os nomes podem ser outros: a partilha dos bens; o diálogo com Deus, em resposta à sua palavra; o autodomínio, modo de controlar os apetites e forma de lembrar que há mais alimento do que o pão da mesa.

1. A esmola

Na Lei de Deus, a esmola está regulada por Dt 15, 7-18: “Se houver junto de ti um indigente entre os teus irmãos, numa das tuas cidades, na terra que o Senhor, teu Deus, te há-de dar, não endurecerás o teu coração e não fecharás a tua mão ao irmão necessitado. Abre-lhe a tua mão, empresta-lhe sob penhor, de acordo com a sua necessidade, aquilo que lhe faltar”. Na mesma linha se situam outros textos mais tardios do AT: Tb 4, 5-11 e Sir 3, 30 - 4, 10.

É sugestivo que a primeira prática quaresmal aponte para a partilha e tenha como destinatários os carenciados. Assim se sugere que o desprendimento dos bens exteriores ajuda ao despojamento interior. A esmola é uma palavra tardia, mas a sua ideia “é tão antiga como a religião bíblica que, desde as origens, reclama o amor dos irmãos e dos pobres” (X. Léon-Dufour, Vocabulario de Teologia Bíblica, ed. Herder, 2009, p. 489).

É verdade que o termo ganhou, entre nós, algum sentido pejorativo, mas o espírito e a atitude subjacentes mantêm-se puros: desapegados de tudo, pela partilha, a ninguém faltará o essencial para viver com dignidade. A esmola será expressão de gratuidade e a partilha dos dons significará desapego e gratidão.

Dado que o hipócrita (o termo significa “ator”, “intérprete”) praticava a esmola com sinais exteriores, não admira que o apelo de Jesus vá no sentido de o fazer de modo discreto: a intenção não é ser visto pelos homens (ficar-se-ia pelo exterior!), mas por Deus, o único a quem cabe reconhecer a pureza das intenções e dar a recompensa.

2. A oração

A Sagrada Escritura apresenta muitas formas e modelos de oração, interpretados por diferentes personagens, mas é sobretudo o “Pai Nosso” (Mt 6, 9-15) que melhor a ilustra, mesmo se outros evangelistas referem a atitude frequente de Jesus em oração (Lucas) ou nos propõem outras orações, como a Oração Sacerdotal de Jesus, em Jo 17.

Com pontos de contacto com a oração judaica e aspetos novos (a simplicidade, a confiança filial com que Deus Pai é invocado e a coerência intrínseca com o ensinamento de Jesus), o “Pai Nosso” é a síntese e o modelo da oração, estruturada em sete petições, atidas ao essencial da vida cristã.

Tal como a esmola, também a oração podia converter-se num ato de ostentação pública, em detrimento do seu espírito de comunhão pessoal com Deus e com os irmãos. O apelo à oração em segredo aparece em clara oposição à sua instrumentalização, como acontecia com os fariseus e, hoje, com certos credos religiosos ou mesmo algumas das expressões da fé cristã.

Mateus exorta a uma oração contida, diferente da dos pagãos que se multiplicava em fórmulas e era entendida em sentido mágico, qual modo de forçar a divindade. O Pai sabe aquilo de que os filhos têm necessidade (Mt 6, 8).

3. O jejum

O jejum consiste numa renúncia parcial ou total à comida e à bebida, entre outras coisas que possam trazer ao ser humano alegria e satisfação. Era uma prática comum na vida judaica, quando alguém se preparava para uma missão (Mt 4, 1; Lc 4, 2), nas circunstâncias do Dia da Expiação (Lv 16) ou no luto (2 Sm 1, 12).

O apelo a que não se faça acompanhar o jejum dos sinais exteriores vai no sentido de contrariar os aspetos visíveis que ilustravam o luto. Se os sinais exteriores eram bem vincados, Jesus ordena que ele seja praticado com o mesmo recato que a esmola e a oração. Nem será necessário dizer que os motivos que conferem autenticidade e genuinidade ao jejum são os mesmos que atribuem iguais qualidades aos restantes.

Impõe-se, a propósito, uma distinção entre jejum e abstinência, tantas vezes confundidos entre nós: o primeiro já está esclarecido; o segundo consiste em privarmo-nos de algo de que gostamos muito. Os objetivos são os mesmos, mas os procedimentos são diferentes e, por isso, convém não confundi-los.


Autor: P. João Alberto Correia
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7 março 2022