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Entre o céu e o inferno

Ser treinador é estar todos os dias num limbo “entre o céu e o inferno”. Há momentos reconfortantes ou de angústia. Há momentos de reconhecimento ou de desalento. Há dias mais brilhantes e outros sombrios. Mas, em todos estes momentos nada retira a importância desta missão.

Em Portugal, esta função é genericamente muito desconsiderada, sendo, habitualmente, o elo mais fraco do processo desportivo, nomeadamente, quando os resultados não surgem. Mas, na verdade, ser treinador é tão difícil quanto nobre.

Durante este confinamento assisti a esforços notáveis de muitos treinadores em continuar a sua interação com as respetivas equipas. Não deixaram de realizar treinos, apesar de serem à distância, continuaram essa “luta diária” em manter a chama da paixão da sua modalidade.

A maior exigência para um treinador é trabalhar com aquilo que os “outros” conseguem desempenhar, mas também exige a constante melhoria das competências (humanas e desportivas), modificar os comportamentos individuais e, nas modalidades coletivas, coordenar essas competências e criar as sinergias de ação em equipa. Mas, a tarefa mais complexa para um treinador é que o seu pensamento/ação não se prende apenas com as competências do jogo, é necessário ser simultaneamente exigente, mas humanista, olhar o outro, saber antecipar, dirigir e gerir.

Ser treinador implica uma constante atualização dos conhecimentos na modalidade e de outras áreas influentes (psicologia, condição física, entre outras…), mas também que os consiga contextualizar ao processo de preparação que lidera.

Para além da necessidade de dominar a modalidade e as suas novas tendências, é imperioso ser inovador, capaz de ensinar o essencial e gerir os momentos inesperados. Exige-se que seja líder, rigoroso, coerente, preocupado, informado, sensível, humanista, compreensivo, comunicativo, altruísta. Ser treinador requer uma constante atenção às expetativas individuais, à gestão emocional dos seus atletas, mas também dos familiares dos atletas, dos dirigentes, dos adeptos. Ao treinador exige-se frontalidade, rigor, disciplina, gestão emocional, empenho, dedicação aos outros e essencialmente resultados. Na realidade, tudo se resume a… resultados. Se a equipa ganha, os atletas “estiveram bestiais”, mas se a equipa perde, o treinador “é uma besta”.

Ou seja, independentemente da qualidade processual do treino e da competição, o que interessa, apenas, são os resultados obtidos, nem que a diferença “entre o céu e o inferno” seja um golo, um segundo, um/dois pontos...

Esta semana, o treinador de futebol da Fiorentina, Cesare Prandelli, com uma larga experiência profissional, cedeu à pressão e pediu para sair do clube, os motivos apontam para um quadro psicológico complexo, que o próprio designa como “sombra”. Ele referiu que: “Uma sombra cresceu dentro de mim e mudou a minha visão das coisas. Eu mudei, mas o mundo está a mudar muito mais rápido”. O “burnout” de Prandelli é muito comum entre os treinadores que se dedicam intensamente aos processos de treino. Este acontecimento despoletou uma forte discussão sobre a pressão social sobre esta função desportiva.

Apesar das agruras em ser treinador, é uma missão e uma paixão. Mais do que mudar o rumo dos jogos, é muito mais gratificante transformar vidas. Este é o nosso “céu”.


Autor: Carlos Dias
DM

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26 março 2021