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Ensolarados

É um lugar-comum sustentar que “o Sol é vida”, que os dias ensolarados recarregam positivamente o ânimo das pessoas.

Sobre a primeira parte desta afirmação, os cientistas atestam-no, explicando que a vida requer luz, fenómeno também relevado em textos sagrados, como o Genesis. A importância do Sol evidencia-se ainda percecionada na civilização humana desde longa data, como o prova, por exemplo, o facto de no panteão do Antigo Egito o deus Sol ocupar um lugar cimeiro.

Mas o Sol, coligado com as “avarias” na natureza desencadeadas ou estimuladas pela industrialização e pela ambição de um crescimento económico contínuo, e pelo superpovoamento da Terra, hoje não se repercute de forma garantidamente positiva no humor dos humanos, já todos o percebemos.

Vamos ao ponto, depois deste introito menos incisivo, não desespere caro leitor.

Um pouco por todo o nosso planeta, a subida exponenciada das temperaturas médias tem sido acompanhada por desastres ambientais, desde secas prolongadas, entrecortadas por inundações pavorosas, ao degelo nos Polos ou extensos incêndios naturais.

Por cá, em Portugal, já entrou no léxico comum a expressão “época de incêndios”, terminologia que algo eufemisticamente nos anestesia perante as dimensões destas recorrentes desgraças estivais. Sobre o que fazer para minguar significativamente a expressão e o correlativo impacto destes incêndios não quero aqui aventar soluções, dada a minha essencial condição de leigo no assunto, ademais quando os supostamente entendidos também não têm conseguido definir ou materializar instrumentos e procedimentos válidos, decididamente mitigadores.

Mas sobre um outro aspeto colateral desta problemática atrevo-me aqui a efetuar uma incursão, para a qual reclamo o interesse do leitor.

Como todos constatamos, para lá dos graves desastres naturais atrás referidos, um problema sério que hoje as populações urbanas defrontam assenta no acentuado aquecimento do ar nas cidades.

Fixemo-nos na Braga que melhor conheceremos. De há anos a esta parte que Braga se destaca regularmente, no painel do IPMA, como uma das cidades mais quentes, e até das mais frias, de Portugal Continental, sem que se descortine aparente condicionamento geográfico para tal “fatalidade” (aceita-se, embora, o desmentido de peritos).

São várias as cidades do Mundo que lograram o caminho da descompressão térmica, isto é, que baixaram a temperatura média que vinham registando, através da opção, entre outras, pelo alargamento das áreas verdes ou o esfriamento e naturalização dos telhados, casos de Ahmedabad, na Índia, Copenhaga, na Dinamarca, ou Melbourne, na Austrália (ver boletim de outubro de 2019 da UN environment programme). Recentemente, em Portugal, num caminho algo paralelo, incentivado e apoiado pelas políticas ambientais da UE, o Estado também tem vindo a estimular a eficiência energética dos edifícios (diminuindo-se a utilização do ar condicionado, por exemplo, lança-se menos calor para a atmosfera no verão).

Em Braga, nas últimas décadas, o extraordinário crescimento da malha urbana, marcado pela profusão de novos prédios e pelo alcatroamento dos muitos quilómetros de novos arruamentos não foi acompanhado pela instalação de generosas áreas verdes envolventes ou mesmo pequenos parques urbanos. Sem um contrabalanço pródigo do verde, a extensa espessura de alcatrão, empedrado e cimento que definiu a nova cidade, no contexto de uma construção em grande parte ineficiente em termos energéticos (porque datada), condicionou, necessariamente, o aumento da temperatura ambiente mediante a diminuição da reflexão da luz solar.

Para muitas – porventura a maioria – das áreas edificadas na cidade de Braga sem equilíbrio ambiental poderá já não haver prestáveis soluções no que respeita à reordenação, ao incremento bastante do verde, nesses espaços públicos. Impõe-se, todavia, que, urgente e decididamente, se aprenda com os bons exemplos. Uma Braga mais verde será certamente menos tórrida e mais acolhedora.

* Doutorado em História Contemporânea pela Universidade de Coimbra


Autor: Amadeu J. C. Sousa
DM

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26 agosto 2022