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Encontro, reflexão, ação

1.Pio XI definiu um dia a política como “a mais alta forma de caridade”.

O bem comum exige que o seja. A prática, em muitos casos, demonstra que não.

É urgente credibilizar a política. Para isso, que quem se lhe dedica procure, antes de mais, formar bem a própria consciência. Depois, que atue de harmonia com ela recusando ser pau mandado de qualquer líder partidário. Tenha a coragem de ser diferente todas as vezes que a coerência e o bem comum o exigirem. Não se envergonhe de destoar sempre que seja preciso fazer ouvir a voz do bom senso.

São necessários cristãos na política. Cristãos que o não sejam apenas porque um dia foram batizados. Que vivam a política como forma de amar o próximo (é o mandamento de Jesus) e não como um modo de enriquecer facilmente. Que não coloquem a defesa de interesses particulares acima do bem comum. Que vivam a política como serviço e não como promoção. Penso que nisto foram exemplo os fundadores do que hoje é a Comunidade Europeia.

2.O Papa Francisco recebeu em 16 de maio membros da fraternidade política Chemin Neuf.

No discurso que lhes dirigiu resumiu em três palavras um programa de política no sentido cristão: encontro, reflexão, ação. Transcrevo, de seguida, passagens desse discurso:

2.1.«A política é, antes de tudo, a arte do encontro.

Certamente, este encontro vive-se acolhendo o outro e aceitando a sua diferença, num diálogo respeitador.

Como cristãos, todavia, há mais: dado que o Evangelho nos pede que amemos os nossos inimigos, não posso contentar-me com um diálogo superficial e formal, como as negociações muitas vezes hostis entre partidos políticos.

Somos chamados a viver o encontro político como um encontro fraterno, especialmente com aqueles que estão menos de acordo connosco; e isto significa ver naquele com quem dialogamos um verdadeiro irmão, um filho amado de Deus.

Então, esta arte do encontro começa com uma mudança de perspetiva sobre o outro, com aceitação e respeito incondicionais pela sua pessoa.

Se esta mudança de coração não se verificar, a política corre o risco de se transformar num confronto frequentemente violento para fazer triunfar as próprias ideias, numa busca de interesses particulares em vez do bem comum, contra o princípio de que «a unidade prevalece sobre o conflito».

2.2. «A política é também reflexão, ou seja, a formulação de um projeto comum.

Um político do século XVIII, Edmund Burke, explicou aos eleitores de Bristol que não poderia limitar-se a defender interesses particulares, mas ao contrário teria sido enviado, em nome de todos, para elaborar com os outros membros do Parlamento uma visão para o bem de todo o país, para o bem comum.

Como cristãos, entendemos que a política se leva em frente não só com encontros, mas com uma reflexão comum, em busca do bem geral, e não simplesmente através do confronto de interesses contrastantes e muitas vezes opostos. Em suma, o todo é superior à parte. E a nossa bússola para elaborar este projeto comum é o Evangelho, que traz ao mundo uma visão profundamente positiva do homem amado por Deus».

2.3. «A política é também ação. Como cristãos, precisamos de comparar sempre as nossas ideias com a profundidade da realidade, se não quisermos construir sobre areia que, mais cedo ou mais tarde, acaba por ruir.

Não esqueçamos que a realidade é mais importante do que a ideia».

«Tomei conhecimento de que alguns de vós escolhestes viver juntos num bairro operário em Paris, para ouvir os pobres: eis uma forma cristã de fazer política!

Não vos esqueçais destas linhas, que a realidade é mais importante do que a ideia: não se pode fazer política com ideologia. O todo é superior à parte, e a unidade é superior ao conflito. Procurai sempre a unidade e não vos percais no conflito».


Autor: Silva Araújo
DM

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2 junho 2022