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Em nome dos consumidores de todo o Mundo, alguém para esta guerra?

O início da invasão da Ucrânia pelo exército russo, no passado dia 24 de fevereiro, constitui uma tragédia para o povo ucraniano, mas afeta de forma particularmente gravosa também a população russa, comporta particulares consequências negativas para a Europa e afeta direta e indiretamente todo o Mundo. Não sendo uma guerra mundial, tem consequências globais, em função do peso dos atores globais implicados e da sua situação geoestratégica e geoeconómica mundial.

E isso tem consequências para os consumidores. Para os consumidores de todo o Mundo, embora afete particularmente os consumidores europeus.

É uma tragédia para o povo ucraniano porque, para além das centenas de mortos e milhares de feridos já registados desde o início da invasão, é todo o destruir súbito de uma sociedade, de um modo de vida, com o que isso implica em termos de perda de património, perda de emprego e de rendimentos, obrigando ainda milhões de pessoas a procurar refúgio noutras regiões e países. Aquilo que os ucranianos estão a passar é algo inimaginável.

Na medida em que esta invasão foi duramente condenada pela esmagadora maioria da comunidade internacional, impondo o isolamento e pesadas sanções económicas à Rússia, a sua população também se prepara para pagar uma fatura pesada. O isolamento da economia russa está a provocar a desvalorização acelerada do rublo, uma escalada do preço de bens e serviços, a impossibilidade prática dos russos e das empresas efetuarem transações e pagamentos internacionais (feitos com recurso ao sistema SWIFT, que foi barrado a diversos bancos russos), uma penúria em muitos dos bens importados dos países ocidentais, a saída de diversas empresas estrangeiras do mercado russo e o aumento do desemprego. Enfim, todo o povo russo sofre por diversas formas com esta guerra que os seus dirigentes lhes impuseram.

Nos diversos países europeus, Portugal incluído, esta situação está a provocar uma nova recessão económica (quando ainda nem sequer saímos da provocada pela pandemia de Covid-19) acompanhada pelo súbito aumento de preço de muitos bens (inflação), gerando em termos económicos uma situação designada de estagflação.

Já assistimos nas últimas semanas a uma escalada dos preços da energia (petróleo e gás natural) que, considerando o peso que a energia representa no funcionamento dos mercados (da produção ao transporte dos produtos e sua distribuição), vai afetar o preço de todos os bens. E a Rússia é um dos maiores fornecedores de petróleo e de gás natural à Europa.

Para além destes aumentos, outros se farão sentir a curto prazo. Considerando o peso que a Rússia (e de algum modo a Ucrânia também) tem no fornecimento de alguns bens à economia mundial, designadamente de matérias-primas, a escassez de bens e o aumento de preços far-se-á sentir noutras áreas para além da energia. É o caso do aço, do alumínio ou do níquel por exemplo. Por outro lado, a escassez de algumas matérias-primas de que a Rússia é um importante fornecedor mundial, irá provocar alguma desarticulação na produção industrial de certos produtos (automóveis, por exemplo), gerando atrasos na sua disponibilização nos mercados e mais aumentos de preços.

A Rússia (e a Ucrânia) têm ainda um papel importante na produção de cereais a nível mundial. Com a guerra na Ucrânia, a produção de cereais com origem nesse país vai sofrer um rude golpe. Mas também os produtores russos de cereais vão sofrer pesadas consequências, com o boicote às importações russas e serão os consumidores de todo o Mundo que também irão sofrer com isso quando se deslocarem a uma padaria para comprar pão.

Num mundo global, acontecimentos aparentemente muito localizados, produzem consequências globais. Também em nome dos consumidores de todo o Mundo, alguém para esta guerra?


Autor: Fernando Viana
DM

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12 março 2022