twitter

Em louvor de D. Sancho l – O Povoador

1 – Portugal, país macrocéfalo, continua a «inchar» na sua faixa litoral enquanto o resto do país, estiola, mirra e…morre. É uma faixa com cinquenta ou sessenta quilómetros de largura, sobrelotada de gente, não porque aí nasçam muitos portugueses, mas porque para aí imigram os fugitivos (ou refugiados na pátria?) da agonia penosa e lenta das suas terras que foram, também , dos seus avós.

Dessa sobrelotação nasce a sub-urbanidade e respectiva cultura, a deficiente habitação que chega mesmo aos aglomerados de barracas, o desprezo pela escolaridade, a marginalidade, a pobreza – relativa ou extrema, visível ou escondida.

Entretanto…

2 – Entretanto quilómetros e quilómetros quadrados do interior abandonado, ainda não há muito férteis, produtivos, sustento de muitas famílias sem fome nem frio, estão a monte, improdutivos, inúteis. Os braços que os trabalhavam foram, enganados, para as cidades costeiras à procura de um Eldorado que lá não estava.

Paralelamente, tudo (ou quase) o que se come nessa faixa sobrelotada, vem «de fora»: da fruta aos legumes, dos cereais aos iogurtes. Basta ir ao supermercado e ver as etiquetas. Peixe do nosso mar – só algum. Carne – idem. Nosso, só o vinho e o azeite. Resumindo: tudo quanto a terra já nos deu, agora compra-se ao estrangeiro. Ou não fôssemos um país rico!

3 – Mas não é só o alimento que o nosso interior deixou de nos dar. Também deixou de nos dar gente! Como só lá ficaram os velhos, já lá não nasce ninguém. E nos aglomerados suburbanos quase ninguém.

4 – O deficit demográfico e a desertificação do interior são duas doenças endémicas e graves do Portugal contemporâneo. E que, mutuamente, se potenciam uma à outra. Sucessivos governos de variadas cores têm bastamente falado do problema, mas parcamente o têm tratado com mezinhas para amanhã, esquecendo terapias de choque para depois de amanhã. Que remédios destes só produzem efeito depois de uma geração!

5 – Tudo isto me traz à memória o nosso segundo Rei – D. Sancho I, o Povoador. Herdou um país com a fragilidade de todo o recém-nascido, com território fértil mas inculto, deserto de gentes que o cultivassem e fizessem produzir. E meteu mãos à obra de o povoar com quem produzisse e se reproduzisse. Não teve medo de imigrantes. Fez vir gentes de vários sítios, nomeadamente da Flandres e da Borgonha a quem deu terras no interior, facilidades e incentivos. Atribuiu cartas de foral a terras remotas da Beira e de Trás-os-Montes. Em 1186 a Gouveia e Covilhã; em 1187 a Viseu e Bragança; em 1195 a São Vicente da Beira; em 1199 a Belmonte. E, no mesmo ano, fundou e muralhou a cidade da Guarda. Assim fomentou uma classe média de mesteirais e mercadores. Assim estabeleceu uma população rural e agrícola. Assim resolveu, com eficácia e mestria, à escala do seu tempo, um problema de sobrevivência de um país recém- nascido.

6 – Agora precisamos, não de um novo Sancho, mas de uma equipa de Sanchos que, no século XXI, tenha a sabedoria, o engenho e a eficácia que, no século XII, D. Sancho I teve para entrecruzar demografia com povoamento.

É tarefa simultaneamente importante e urgente. A prazo, é a sobrevivência de Portugal que está em jogo.

Nota: por decisão do autor, o presente texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.


Autor: M. Moura Pacheco
DM

DM

13 março 2022