O tempo passa e não perdoa. Hora a hora, dia a dia, vamo-nos apercebendo que, dentro em breve, iremos votar para elegermos quem há-de ser o nosso Presidente da República nos próximos quatro anos.
As sondagens apontam claramente para um vencedor. E à primeira volta. Se elas são fiéis, poupam-nos o trabalho de ter de voltar às urnas para escolher, de modo definitivo, o próximo presidente, numa segunda volta...
As televisões e os outros meios de comunicação social, todos os dias, vão-nos dando uma imagem do que está a acontecer. Os debates têm sido o grande chamariz dos que se interessam por saber se o candidato ‘a’ triunfa sobre o candidato ‘b’, ou se, no meio de uma discussão acesa, se consegue entender de facto quais são as argumentações dos dois contentores, que nem sempre sabem manter a calma e não se irritar, de modo a que o seu pensamento não seja afogado numa nuvem algo enigmática de intervenções que não compreende quem tem uma audição normal e lhe parece que, no meio de tantas interpelações que não logrou captar, começa a estar surdo.
O importante, certamente, é que os portugueses não dêem por suposto que o vencedor, quer queiramos quer não, pelos dizeres das referidas sondagens, está predeterminado. Deste modo, o seu voto “não aquece nem arrefece”. Ou seja, é uma manifesta “perda de tempo” ir às urnas, num dia excelente para descansar, sabendo-se como se sabe previamente, quem ganha.
Esta mentalidade, infelizmente muito lusitana, levará a que o verdadeiro triunfador não seja nenhum dos participantes nos debates, mas a abstenção e que, apesar de tudo, quem recolha mais votos nas urnas espalhadas por todo o país, certamente em número pouco relevante, more em Belém durante os próximos quatro anos. Assim, os portugueses, pela sua conduta preguiçosa, terão um presidente que a maioria não votou, mas apenas uma minoria que se decidiu a depositar nos lugares próprios o seu parecer, exercitando um direito democrático fundamental. Em suma: entre os votos nos outros candidatos e as abstenções, quem vence é profundamente minoritário. Mas é esta minoria que determina quem vai ser o presidente de “todos os portugueses”, não sendo escolhido senão por uma sua pequena parte.
Oxalá que me engane profundamente nesta previsão, que provém dum triste sentimento de quem gostaria que o nosso povo eleitor acorresse em pleno a depositar o seu voto e se habituou, pelo contrário, a vê-lo estar-se nas “tintas” para os actos eleitorais, nomeadamente quando as sondagens, pelos números que indicam, antecipam de modo inevitável a vitória consumada de um dos concorrentes.
Recordo-me, há já alguns anos, quando se pôs em jogo a legalização do aborto através de um referendo – salvo erro foi no verão e num dia fantástico para ir à praia –, que num canal de televisão se fizeram entrevistas a cidadãos que não tiveram o cuidado de votar, preferindo um excelente banho de sol e de mar. Um desses – varão – comentou, decerto como forma irónica de se desenvencilhar de uma atitude pouco louvável e de desinteresse, que o aborto “era um assunto de senhoras...”, pelo que se sentia fora do contexto.
A eleição do Presidente da República, não sendo, obviamente, “um assunto de senhoras”, deve levar os eleitores a cumprir a sua obrigação. E esta é de natureza moral, porque deixa ao critério de cada um votar ou não votar, ou seja, tem a liberdade democrática de o fazer ou não fazer. Mas é penoso ver tanta gente aproveitar-se desta faculdade para, pura e simplesmente, não cumprir uma obrigação de consciência, optando pelo que é mais cómodo.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva