twitter

Eça de Queirós e Portugal e, já agora, Braga

Por causa do feriado de 15 de Agosto, este jornal não se publicou no domingo passado, razão por que a evocação de Eça de Queirós não pôde calhar no dia exacto em que se celebrou o 120.º aniversário da sua morte. Não virá grande mal que ela se faça uma semana depois, ainda que a efeméride interesse menos do que as mais recentes contratações do Sport Lisboa e Benfica. Não sendo o Cebolinha, o Vertonghen ou o Waldschmidt, o escritor é, justamente, um dos raros que contraria a tendência nacional para esquecer qualquer autor português, independentemente da respectiva qualidade, meia-dúzia de anos após a sua morte. Eça de Queirós não é, de facto, um escritor com insuficiência de reconhecimento. No posfácio do recente Com Borges [1], livro que evoca o período em que conviveu com o escritor argentino Jorge Luis Borges, o ensaísta Alberto Manguel revela que “Borges admirava Os Maias, O Primo Basílio, O Mandarim, e nunca perdia uma oportunidade de dizer que Eça de Queirós era o seu romancista oitocentista preferido da Península Ibérica”. Jorge Luis Borges é, a seguir, citado textualmente para sublinhar a qualidade literária do escritor português e do amor – carinhoso e irónico – que este dedicava a Portugal. Este sentimento nem sempre foi compreendido. Em certa ocasião, Eça de Queirós decidiu explicar a Manuel Pinheiro Chagas, um escritor menor e um político apreciado, que era um patriota e em que é que isso consistia. No texto compilado em Notas Contemporâneas [2], diz-lhe que perfilha o “nobre patriotismo”, dos que “respeitam a tradição, mas o seu esforço vai todo para a nação viva, a que em torno deles trabalha, produz, pensa e sofre: e, deixando para trás as glórias que ganhámos nas Molucas, ocupam-se da pátria contemporânea, cujo coração bate ao mesmo tempo que o seu, procurando perceber-lhe as aspirações, dirigir-lhe as forças, torná-la mais livre, mais forte, mais culta, mais sábia, mais próspera, e, por todas estas nobres qualidades, elevá-la entre as nações”. Para Eça de Queirós e para os patriotas como ele, “nada do que pertence à pátria lhes é estranho: admiram decerto Afonso Henriques, mas não ficam para todo o sempre petrificados nessa admiração: vão por entre o povo, educando-o e melhorando-o, procurando-lhe mais trabalho e organizando-lhe mais instrução, promovendo sem descanso os dois bens supremos – ciência e justiça”. Um derradeiro parágrafo conclui a caracterização dos patriotas da cepa do autor de Os Maias: “Põem a pátria acima do interesse, da ambição, da gloríola; e se têm por vezes um fanatismo estreito, a sua mesma paixão diviniza-os. Tudo o que é seu o dão à pátria: sacrificam-lhe vida, trabalho, saúde, força. Dão-lhe sobretudo o que as nações necessitam mais, e o que só as faz grandes: dão-lhe a verdade. A verdade em tudo, em história, em arte, em política, nos costumes.Não a adulam, não a iludem: não lhe dizem que ela é grande porque tomou Calecute, dizem-lhe que é pequena porque não tem escolas. Gritam-lhe sem cessar a verdade rude e brutal. Gritam-lhe: - ‘Tu és pobre, trabalha; tu és ignorante, estuda; tu és fraca, arma-te! E quando tiveres trabalhado, estudado e armado, eu, se for necessário, saberei morrer contigo!’” Nisto consiste “o nobre patriotismo dos patriotas”. Mas há outro género de patriotismo que merece o repúdio de Eça de Queirós: “O outro patriotismo é diferente: para esse, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna – mas a outra pátria, a que há trezentos anos embarcou para a Índia, ao repicar dos sinos, entre as bênçãos dos frades, a ir arrasar aldeias de mouros e traficar na pimenta”. Esta maneira de amar a pátria, que o escritor deplora, consiste simplesmente em “tomar a lira e dar-lhe lânguidas serenatas”. O que o faz “sobe à tribuna do Parlamento ou ao artigo de fundo e de lá exclama, com os olhos em alvo e o lábio em luxúria: ‘Oh, pátria! Oh, filha! Ai, querida! Oh, pequena! Que linda que és!’” Acrescenta Eça de Queirós que isto que à nação se diz é o que mesmo que, na véspera, se tinha dito, num restaurante, “a uma andaluza barata”. Dar música ao país não é, de facto, a forma adequada de lhe transmitir afecto. Portugal, é sabido, é o grande tema da obra de Eça de Queirós. Nela, há escassas referências a Braga e a mais conhecida encontra-se em A Relíquia [3]. Quando o protagonista Teodorico Raposo – “enfiando desconsoladamente as ceroulas” – pergunta a Alpedrinha se já tinha estado em Jerusalém, surge a resposta: “Não senhor, mas sei... Pior que Braga!” Algumas páginas à frente, Teodorico Raposo (“Raposão” por alcunha) corrobora a apreciação, dizendo ao companheiro de viagem, um académico alemão: “Isto é um horror, Topsius! Bem dizia o Alpedrinha! Isto é pior que Braga, Topsius! E nem um passeio, nem um bilhar, nem um teatro! nada! Olha que cidade para viver Nosso Senhor!” [1] Lisboa: Tinta-da-China, 2020 [2] Lisboa: Livros do Brasil, s/d [3] Porto: Lello & Irmão, 1951 Destaque Não sendo o Cebolinha, o Vertonghen ou o Waldschmidt, o escritor é, justamente, um dos raros que contraria a tendência nacional para esquecer qualquer autor português, independentemente da respectiva qualidade, meia-dúzia de anos após a sua morte.
Autor: Eduardo Jorge Madureira Lopes
DM

DM

23 agosto 2020