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E se os jovens fossem como os de Taizé?

15 mil jovens de todo o mundo, com predominância naturalmente dos espanhóis, dado o encontro ser em Madrid, passaram os 5 dias do fim de ano em ambiente de reflexão e oração, deixando transbordar uma alegria deveras contagiante, que impressionou vivamente as muitas famílias que acolheram jovens em suas casas.

Os testemunhos são eloquentes: «Foi uma experiência maravilhosa»; «estamos cansados, mas muito contentes, pois estes jovens transmitiam muita alegria, muita paz e muito amor».

Nem as diferenças de cultura e língua foram obstáculo aos laços de fraternidade e amizade que se criaram. Um jovem da Indonésia e outro da Suazilândia entenderam-se na casa de Cristina que os acolheu, utilizando o tradutor do telemóvel. O ambiente criado foi tão bom que até pediram licença para a tratar por mamã. Cristina já conhecia Taizé há uns 20 anos. Ela mesma experimentou o que se pode descobrir e ganhar quando a fé desperta em nós todas as sedes que nos inquietam e se lhes dá sentido. Ela foi uma mãe acolhedora, apesar de o filho doente lhe exigir muitos cuidados e tempo, pouco lhe restando para poder rezar. Quando tal acontece, diz: «rezo com a acção e o acolhimento».

O irmão Alois, prior de Taizé, tem ideias bem claras: «a hospitalidade aproxima-nos, mesmo no meios das nossas divisões, pois nos ajuda a vê-las a uma outra luz. A hospitalidade torna-nos capazes de escuta e de diálogo». Foi sobre a hospitalidade que os jovens reflectiram, pois esta é uma marca distintiva de Taizé que, através dela, quer ajudar a construir um mundo marcado pela cooperação e não pela competição.

No centro de toda esta experiência, momentos fortes de oração introduzidos pelo irmão Alois e o Cardeal Osoro, arcebispo de Madrid. As chaves para uma oração bem conseguida e sanadora são: silêncio, escuta, constância e Palavra de Deus. E o mais chamativo de tudo isto era o silêncio espontâneo dos jovens ao chegarem os momentos de oração.

Bastava um cântico repetido pausadamente para que todo o amplo pavilhão deixasse entrar o convidado por excelência: «um silêncio profundo, sinal do Espírito que nos une a todos e nos proporciona a aventura interior de confiar nos outros, confiar em nós próprios e confiar em Deus, realidades aliás profundamente interligadas».

Para suas casas, os jovens levaram 3 desafios: 1) Trabalhar para estarem mais atentos a sinais de pobreza, começando por exemplo com visitas que aliviem o isolamento de uma pessoa idosa que viva sozinha ou mesmo de uma criança abandonada; 2) acolher os emigrantes e refugidos, apoiando as iniciativas locais e internacionais que procuram dar-lhes maior segurança e justiça; 3) ter consciência de que a paz entre os seres humanos exige solidariedade com a criação, dando passos concretos para aliviar a exploração desmesurada dos recursos, a contaminação e a perda da biodiversidade.

Mas, para enfrentar tais desafios, é preciso que, antes, exista um coração reconciliado, para evitar que caiamos no mundana e politicamente correcto. A fonte da reconciliação não é uma ideia; é uma pessoa, é Cristo, pois só Ele nos pode dar a sua paz e fazer-nos instrumentos da paz.

Para ajudar neste encontro com Cristo, fonte de vida e reconciliação, muito podem contribuir as considerações da teólogo protestante Katharina Opalka que, em Madrid, desenvolveu o tema : As imagens de Deus: anfitrião acolhedor ou juiz todo poderoso? Se calhar, em muitos de nós, a imagem predominante é a de um Deus todo poderoso que talvez inspire mais medo que entrega confiante.

Reconciliarmo-nos com a imagem de Deus como um anfitrião amoroso, que está do lado dos débeis e de quantos põem nele sua confiança, depende de não termos medo de nos questionarmos abertamente, sem receio das dúvidas que nos possam assaltar.

É imersos na oração e no silêncio que melhor podemos escutar e deixar que chegue até nós a imagem de Deus que o Espírito Santo nos revela e nela nos molda. Não somos nós que escolhemos livremente uma imagem de Deus. É Ele que chega até nós através da acção do Espírito Santo.

A única coisa que Deus nos pede é que procuremos um lugar e um espaço na nossa vida para Ele e que O escutemos, rematou a irmã Jéssica, das religiosas de santo André que, há mais de 50 anos, trabalham com os irmãos de Taizé neste acolhimento aos jovens de todo o mundo.


Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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12 janeiro 2019