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E que tal uma Escola de Atores!

A oportunidade está aí e depende mais da vontade dos próprios do que de um decreto institucional. Na verdade, há muito que Braga e a região do Minho em geral, são contribuintes líquidos da qualidade que atores e atrizes exibem pelos palcos do país. De Monção a Barcelos, de Braga a Guimarães, passando por Viana do Castelo, não faltam bons exemplos do que tem sido o trabalho de dezenas de homens e mulheres, uns mais novos do que outros, a espalharem qualidade. Nos palcos da capital, não faltam exemplos e até no Porto as marcas do que outrora foram curiosos, amadores ou formandos de escolas profissionais, pegam de estaca, seja no teatro, em séries, novelas ou no próprio cinema. A questão que merce ser colocada, parte de uma avaliação ao trabalho realizado por encenadores, como José Miguel Braga, António Fonseca, Nuno Cardoso, Paulo Lobato e o mais jovem deles, o Tiago Fernandes, ao longo dos tempos, para criar, não só público para o teatro, como arregimentarem para a arte geral da representação, uma nova geração de enorme talento. A Mostra de Teatro Escolar é apenas uma das muitas passadeiras que se tem estendido todos os anos para mostrar, a título de exemplo, o trabalho anual nas escolas secundárias de Braga. A criação de uma Escola de Atores não pode ter vistas curtas e se deve ser olhada como uma extensão do trabalho em contexto escolar e não um substituto, tem a obrigação de ir mais longe nos diferentes géneros da arte de representar, permitindo, estou certo, que muitos jovens não desistam por falta de meios e muitos deles possam ter a oportunidade de subirem aos palcos e às telas como profissionais. É verdade que o sonho de jovens atores e atrizes é pisarem os grandes palcos tradicionais de Lisboa e Porto, mas o Minho tem talento e massa crítica para criar condições à afirmação do trabalho que aqui é realizado, sem precisar de se pôr em bicos de pé. Nem todos chegam ao patamar da crescente qualidade que vai sendo exigida, mas o mundo da representação é enorme e as múltiplas funções que ajudam a construir as histórias, também. Atrevo-me, mesmo, a achar que escola também devia ter uma componente de formação técnica para todos aqueles que trabalham nos bastidores ou se sentem atraídos pela encenação e ou pela realização. Chegar a um patamar superior não é fácil, exige a concertação de esforços, não só dos visados, mas da comunidade e em particular dos que têm na mão a chave que pode abrir as portas à criação de condições. Câmaras municipais e empresas estão hoje mais sensibilizadas para a importância da Cultura como fator de coesão social, de combate à iliteracia, elevação de massa crítica, competitividade e de valor acrescentado para as suas economias. Só quem andar distraído pode achar que é ainda é uma área onde se gasta dinheiro sem retorno económico, quando está por de mais demonstrado, que é exatamente o contrário. Portugal é a soma de um conjunto de realidades disformes, incompletas e injustas na hora de concretizar os sonhos artísticos de portugueses e portuguesas. São poucos os que granjeiam as condições para elevarem o seu estatuto à condição de trabalho permanente, bem remunerado e solvente, mas esse é um desafio que deve ser colocado na agenda dos decisores políticos se não quiserem ver as suas cidades despejadas do talento. Uma escola multifacetada será um bom sinal para os adventos de mudança que se preconizam em cidades como Braga que tem crescido à custa da massa crítica e da sua capacidade competitiva. A aposta num setor como a Cultura deve partir sempre da infraestruturação necessária ao desenvolvimento da Arte de representação, mas precisa, mais do que isso, na hora de tomar decisões quanto às áreas que merecem investimento permanente e esta é, sem sobra de dúvidas, uma delas. Quero crer que exemplos como o do empresário José Teixeira, com o apoio a duas companhias de teatro, a galerias de arte e a um sem número de iniciativas culturais, serão replicadas. Falta apenas e o mais importante: criar uma estratégia para que todos estes talentos possam emergir de forma estruturada e com a qualidade que todos queremos ver, seja em palco, num cinema perto de si, ou num canal de televisão.
Autor: Paulo Sousa
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30 agosto 2020