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É ou não é?

Quis o destino que eu não fosse oriundo de uma qualquer tribo africana, uma vez que ninguém pode escolhê-lo e, muito menos, recusá-lo. Por isso, sou o que sou: português, minhoto e inserido no Continente europeu. Mas se tivesse sido gerado de um casal com a negritude africana e, um dia, resolvesse emigrar o mais provável seria certificar-me se não estaria a mudar-me para um país racista, como dizem que é Portugal. Sobretudo, se não iria para uma terra onde não tolerassem a minha cor de pele. Ou seja, sendo eu uma pessoa de tez escura estar convicto de que não seria alvo, permanente, de discriminação racista. Só dessa forma, me sentiria mais seguro de ser acolhido como cidadão de pleno direito e respeitado como ser humano. Ao ignorá-lo, seria correr esse risco. Ora, o que têm visto estes meus olhos que a terra, ou o fogo, hão-de devorar, tirando um ou outro caso pontual, não é o que por aqui tenho contemplado no meu dia-a-dia. E porquê? Porque tendo sido este país um colonizador, cedo se habituou à coabitação com os povos das suas ex-colónias, bem como com os que vindos delas para a, então, metrópole por cá ficaram. Daí, que é ou não é verdade a procura do nosso país por migrantes africanos e de outros continentes de diversas cores, credos religiosos e ideologias políticas para, nele, residirem? De certo modo, bem melhor ficaram do que em Palma, Cabo Delgado, onde os interesses externos e o terror matam os moçambicanos residentes, ou os obrigam a fugirem das suas próprias casas. Isto, enquanto ao nosso território chegam, assiduamente, cidadãos oriundos dos mais diversos países. Não será por se sentirem mais seguros aqui? Eu acho que sim. Claro, respeitando as leis portuguesas como, aliás, em qualquer parte do mundo em que o mesmo é exigido? Serão, porventura, foros de racismo, ou neocolonialismo, oferecermos cooperação e auxílio a pacientes sem resposta nesses países no nosso SNS? Cito, como exemplo, os tratamentos a cerca de 8.344 doentes, entre 2016 e 2019, ao abrigo de um acordo com os PALOP, a saber: Guiné-Bissau - 53%; Cabo Verde - 31%; S. Tomé e Príncipe - 12%, incluindo Angola e Moçambique. Tendo os nossos serviços hospitalares acolhido nas variadas especialidades esses enfermos: em Pediatria, Cardiologia, Urologia, Ortopedia, Otorrino, neurocirurgia, etc. Assim sendo, em 2016, foram atendidos 1748 casos; em 2017=2705; 2018=23.007 e em 2019=1595, faltando contabilizar 2020, ano de carência devido ao Covid-19. De realçar, ainda, é o facto de Portugal ter disponibilizado 5% das suas vacinas para os ‘PALOP’, como no caso de Cabo-Verde que, recentemente, recebeu 24.000 doses como ajuda à imunização das suas populações. Não foi por mero acaso que Fausto, ‘cantor de abril’, veio dizer à RTP – no programa ‘Primeira Pessoa’, de Fátima Campos Ferreira – o seguinte: “os povos das nossas ex-colónias foram bem mais felizes no tempo do colonialismo do que são atualmente”. Daí, o banho de multidão que o Presidente Marcelo recebeu em terra guineense, digo eu. A partir daqui, é ou não é plausível termos dúvidas quanto a sermos um país estruturalmente racista? É ou não é, que podíamos ter procedido como outros o fizeram – em tempos de descolonização – e não o fazemos: – “arranjem-se”. Mas não! Impele-nos a vontade de ajudarmos esses países nos mais variados setores. O que me leva a citar o desabafo, que ouvi, de um angolano de gema: “se algo de bem-feito e de boa qualidade, existe em Angola é obra dos portugueses. Já os chineses andaram aqui a explorar-nos, deixando tudo aquilo que fizeram uma lástima, inclusive um aeroporto”. Não são minhas as seguintes palavras, mas de Agostinho Neto, em 1974, ao Expresso: “eu penso que nestes cinco séculos de colonização se criaram laços humanos que não se perdem. Eu não sei se, como país independente, poderemos passar sem o conhecimento e os técnicos portugueses”. É ou não é caso para os que acusam Portugal de ser perigosamente racista refletirem?
Autor: Narciso Mendes
DM

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31 maio 2021