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Duas visões do país… a partir das raízes de vida

Oque vimos e ouvimos a respeito da Operação Marquês consegue ainda espantar aqueles que, como nós, por muito ter visto e apreciado ao logo da vida, suspeitavam e diziam que mais nada os faria surpreender. Mas a verdade é que os nomes envolvidos no caso Marquês, a teia urdida por essas individualidades, com enredos que desafiam a mais fértil imaginação, o volume de dinheiros que circulavam por dédalos e biombos, sempre por atalhos que não por via larga, deixam-nos espantados. Ainda não sabemos se os envolvidos e nomeados pelo ministério público são ou não culpados; isso só o tribunal o dirá no seu tempo; mas o que daqui rescende com pestilência, é o cheiro desta podridão que pode contaminar toda a sociedade. Os cidadãos começam a duvidar da ética de cada governante e da moral das pessoas poderosas económica e financeiramente deste país. Estes senhores arguidos contaminaram de tal maneira o ar social, que todos nos parecem serem iguais; desconfiaremos do juiz e da sua sentença, do professor e da sua avaliação, do militar e da sua estratégia, do médico e do seu diagnóstico, do advogado e da sua causa, do presidente e da sua honorabilidade. A sociedade pode ter a tentação de generalizar que é meter tudo no mesmo saco de suspeitas. Donde vem este ambiente de desconfiança que se generaliza? Naturalmente do comportamento desviante da classe dirigente política e financeira: esta, por cobiça, perdeu os valores da honra. Fala-se em branqueamento de capitais, falsificação de documentos, abusos de poder, peculato, troca de favores e influências. E os mencionados são tantos e tão altos que a gente se espanta. Dizem que estes senhores de cartola e colarinho branco foram tecendo uma teia de manhas e artimanhas onde caímos como moscas incautas. Como Diógenes sabia que eram raros os que podem ser Homens! E falavam de honra, de boas práticas e virtudes. Todos fariseus. Mas ainda são apenas arguidos. Ainda não foram acusados de coisa nenhuma! É verdade mas é igualmente verdade que o ministério público tem provas concretas e deduções plausíveis para os arguir. Ninguém acredita que o ministério que defende o bem público e seus cidadãos, invente por alta recriação um mega processo destes só porque sim. O dinheiro da corrupção circulou de uns para outros, e isto é prova concreta; os circuitos do dinheiro foram estabelecidos e sabe-se por quem passou e a quem foi dar. Isto é factual e não mera redação abstracionista. Sabe-se de fonte concreta os milhões que saíram da CGD, sabe-se sem réstia de dúvidas o que aconteceu na transferência de milhões para o GES. Pode não se vir a provar substancialmente as intenções, mas os dados recolhidos pelo ministério público são tão concretos como a substância da verdade. As luvas, as percentagens, as intenções podem entrar em discurso jurídico no foro das especulações discursivas, mas o caroço duro dos factos apurados parece ser tão indesmentível; assumido tudo isto como verdade, a verdade destes factos impusera-se-nos; temos curiosidade em vê-los refutados pela defesa quando em juízo. Não sabemos que castigo pode ser aplicado aqueles que poluem o ambiente moral de uma sociedade. Esta é a mais pesada das drogas. As prevaricações do foro cível, têm leis que as pune. Mas quem pune os corruptores da moral duma sociedade? Que graus atingiram esses danos morais? Quem os poderá medir? Quando as poderemos restaurar? Quando o espelho está partido, não nos vemos por inteiro em nenhum dos cacos.
Autor: António sílvio couto
DM

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23 outubro 2017