twitter

Dois em um

1 – Todos estamos recordados de 2011: com o País à beira da bancarrota, sem dinheiro para pagar sequer aos seus funcionários, Portugal foi «resgatado» “in extremis” pela troika e por um novo governo que impôs uma austeridade severa, dolorosa e corajosa – porque é precisa muita coragem para cortar salários e pensões com a determinação de quem corta uma perna gangrenada para salvar a vida. Os autores desta cruel cirurgia chamavam-se Victor Gaspar e Maria Luís Albuquerque.

Mas valeu a pena: lenta, muito lenta, mas progressivamente as contas foram sendo pagas e Portugal teve uma saída limpa do resgate da troika. Mas continuou sobrecarregado com uma dívida que não lhe permitia livrar-se, por uma vez, da famosa austeridade, mas apenas um alívio ligeiro, lento, cauteloso.

2 – Não o entendeu assim o governo que se seguiu. Anunciou e prometeu, com todas as letras, «virar a página da austeridade», repor salários e pensões, descongelar carreiras, voltar ao horário das 35 horas, investimento público, muito investimento público, sobretudo na Saúde, na Escola e na Justiça. Mas também nas estradas e na ferrovia.

E a provar a sua boa-vontade e a sua sinceridade, logo repôs os salários e as pensões e reduziu o horário para as 35 horas (sem aumentar os recursos humanos que a redução implicava). E por aí se ficou.

3 – É que o novo Mago das Finanças sempre soube que não era possível, de um ano para o outro, trocar a austeridade pela facilidade. Por isso segurou a austeridade com mão direita, calçada de ferro, enquanto com a esquerda, calçada de veludo, a maquilhava, cuidadosa e sedutoramente de prosperidade.

4 – Agora os professores exigem o prometido descongelamento de 9 anos. Outros funcionários públicos se lhes seguirão. Os enfermeiros pedem mais recursos técnicos e humanos. Os médicos, idem. Os juízes ameaçam greve e os funcionários judiciais fazem-na. Por todo o país vai uma onda de contestação reivindicativa que nem mesmo a melhoria das exportações e as divisas do turismo conseguiriam satisfazer.

5 – Mário Centeno já mandou o Primeiro-Ministro dizer (finalmente!) que não há dinheiro para tudo.

É que ele – o Mago – não cede na austeridade – e sabe que não pode ceder. Por isso fez uma síntese perfeita de Victor Gaspar e Maria Luís Albuquerque, maquilhou-a sedutoramente e pôs-lhe uma encadernação nova e vistosa. O velho caderno de encargos daqueles tinha umas capas pobres de plástico transparente. A síntese de Mário Centeno tem uma encadernação de luxo – de marroquim com ferros a oiro. Mas o conteúdo é o mesmo. É Maria Luís Albuquerque e Victor Gaspar num só Mário Centeno – dois em um.

Nota: por decisão do autor, este texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.


Autor: M. Moura Pacheco
DM

DM

8 julho 2018