Em certas situações, tive oportunidade de verificar, não sem pena e tristeza, como alguns fiéis cristãos, movidos por um sentido de superioridade e de ignorância aparentemente douta e adulta, olhavam com desprezo e coisa de somenos importância para a existência dos anjos da guarda.
A Igreja, no próximo dia 2 de Outubro, celebra a sua memória. Todos os anos, nesta data, lembra a sua existência e a sua importância na vida de cada fiel cristão. Cada um destes, por vontade divina, é auxiliado por um ser angélico na sua trajectória para a eternidade, o Céu, objectivo essencial para que Deus nos criou.
Duma maneira algo trocista, pensa-se que isso dos anjos da guarda é apanágio de uma mentalidade algo infantil, duma espiritualidade pouco consciente, que não tem em consideração que o ser humano, vivendo a sua vida com honra e pundonor, não necessita dessa ajuda para entrar no reino dos Céus. Mais, meter um anjo da guarda nessa caminhada pode ser uma forma de limitação da liberdade do fiel e até de o fazer pouco viril na luta por alcançá-lo.
Em primeiro lugar, devemos pensar que a existência de um anjo que acompanha o dia a dia da nossa vida é um dom de Deus. E como tal, não pode ser uma manifestação de beatice ou de perda do sentido da responsabilidade,. O que Deus nos oferece é sempre um bem perfeito em si mesmo e nos fins para que se destina.
Por isso, quando Deus, como nos ensina a Igreja, dispôs que cada um de nós seja ajudado por um ser angélico na luta pessoal por alcançarmos o Céu, quer com isso, não limitar as nossas responsabilidades de seres livres, criados à sua imagem e semelhança, mas ajudar-nos nessa batalha, a mais importante entre todas as da nossa vida, porque conhece as nossas dificuldades, sabe que precisamos de uma ajuda e de uma companhia amiga nos momentos mais complexos e, com certeza, – sem nos substituir minimamente –, auxiliar-nos sempre a enveredar pelos caminhos do bem.
É um acto de generosa misericórdia da parte do nosso Pai Deus. Facilita-nos o caminho do Céu? Certamente, mas não dispensa, como se referiu, nem por um momento, que as nossas acções sejam verdadeiramente livres e responsáveis. O nosso Anjo da Guarda não nos substitui, não nos acalenta a praticar uma má acção, contando depois com a sua protecção e conforto. Se a praticamos, auxilia-nos a saber pedir perdão a Deus, a ser humildes, a ser conscientes de que o que fizemos foi um um mau acto de liberdade e de injustiça para com o próprio Deus.
Que se trata de um dom de Deus magnífico, basta pensarmos que um ser angélico, criatura de Deus como todo o ser humano, é incomparavelmente superior a nós em inteligência, em vontade, em conhecimento e em poder. Nesta ordem de ideias, como devemos estar gratos a Quem lhe pediu que cuidasse de nós e que, dentro dos limites da nossa liberdade, nos mostrasse na consciência que se a vontade de Deus é, por vezes, custosa e difícil – como foi para Cristo a sua Paixão e Morte – ,devemos assumi-la em plenitude, contando sempre com o seu concurso e o seu discernimento.
Um anjo, como qualquer criatura, não consegue penetrar na nossa intimidade de uma forma coerciva ou espontânea. Nela, apenas podemos entrar nós – com todas as nossas limitações – e Deus, de um modo perfeito e absoluto, porque é omnisciente. Com isto não se quer significar que o nosso Anjo da Guarda não nos conheça melhor do que nós., graças à potencialidade da sua capacidade cognitiva e ao primor que manifesta no cumprimento da sua missão.
Na significativa expressão popular, o nosso Anjo da Guarda conhece-nos de “ginjeira”. No entanto, devemos ter presente que o seu trabalho será facilitado e, de algum modo, acarinhado, quando nós dialogamos com ele, expondo as nossas dificuldades, as nossa fraquezas, as nossas lutas e sabendo agradecer-lhe o seu auxílio.
Nunca deixará de cumprir junto de nós a sua missão. Mas se o não tratamos como uma espécie de ser problemático e distante, com quem não temos intimidade, poderá entrar mais a fundo na nossa vida, porque sente que somos seus amigos e desejamos, de facto, a sua ajuda para os fins que Deus o destinou.
Autor: Pe. Rui Rosas da Silva