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Desporto em tempo de guerra

O Comité Olímpico Internacional (COI), durante a passada semana, imediatamente após a invasão da Ucrânia por parte das tropas russas, acusou o governo deste país de não ter respeitado a trégua olímpica. Dos relatos existentes sobre a Antiguidade Clássica, os Jogos Olímpicos ganharam um especial estatuto e importância que os conflitos, entenda-se guerras, que decorriam nas povoações, nomeadamente cidades-estados, eram interrompidos para que atletas e outras pessoas interessadas em assistir a este acontecimento pudessem chegar a Olímpia, terreno dos jogos, sem qualquer problema e que o trajeto e participação decorresse em segurança. O período da trégua olímpica era neste tempo contado a partir de três meses antes e três meses depois do final das competições, sendo todo o armamento existente colocado de parte e em local seguro. Esta trégua olímpica foi sempre considerada como uma oportunidade para criar e valorizar momentos de paz, de celebração, reflexão e conhecimento dos adversários, traduzindo-se num contributo efetivo para a promoção da boa e justa relação entre a humanidade. Numa nova versão, acompanhando os tempos e velocidade a que a sociedade se move neste novo tempo, em dezembro de 2021, os 193 Estados que compõem a Organização das Nações Unidas (ONU) assinaram a resolução de compromisso em que todos deveriam respeitar a Trégua Olímpica até sete dias antes e após o encerramento dos Jogos Paralímpicos de Inverno, os quais, decorrerão a partir de hoje, até ao dia 13 de março próximo. Das diferentes respostas das organizações desportivas internacionais à invasão da Federação Russa com a ajuda da Bielorrússia ao país vizinho, após o cancelamento de inúmeros eventos internacionais em território russo e bielorusso, vieram as decisões de impossibilidade de usar símbolos nacionais russos por parte de atletas e equipas em eventos internacionais, e finalmente a proibição da participação de atletas destes dos dois “países invasores” em muitos dos eventos à escala global, nomeadamente nos Jogos Paralímpicos deste mês. A situação é complexa do ponto de vista geopolítico, económico, social, e sobretudo humanitário, com a morte de inúmeros civis, entre os quais desportistas, sabendo-se que a esta tragédia não ficará por aqui. A reação da quase totalidade dos países e organizações não-governamentais que regulam o desporto a nível internacional e continental no espaço europeu, e dos seus líderes, é de condenação, colocando o desporto na esfera da resolução política, em que, para além das medidas já enunciadas, surgiram já indicações da não participação em eventos desportivos onde se encontrem atletas da Rússia e da Bielorrússia presentes. Esta trágica, triste e lamentável situação, trará um dano muito severo para toda a humanidade, onde o desporto e seus líderes mundiais tentam fazer o seu papel, privando alguns de momentos de trégua, mas na expetativa de uma rápida e definitiva celebração da Paz e respeito entre culturas e Países, e que os valores da Vida e da Solidariedade coletiva se sobreponham a qualquer desejo individual de uma glória forjada no medo.
Autor: Fernando Parente
DM

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4 março 2022