Paris, 15 de julho de 2018. Vinte anos depois, a França volta a sagrar-se campeã do mundo de futebol. Uma multidão multiétnica enche os Campos Elísios e artérias adjacentes para celebrar – na senda da equipa Black-Blanc-Beurde 1998 – mais uma vitória de um colectivo maioritariamente composto por jogadores com raízes extraterritoriais.
Curiosamente, ou talvez não, os festejos congregam uma população profundamente dividida quanto à questão da imigração.
Menos de um mês antes, 56% dos Franceses tinham-se manifestado contra o acolhimento dos 630 refugiados do navioAquarius. E, há pouco mais de um ano, a extrema direita arrecadara cerca de onze milhões de votos, na segunda volta das Presidenciais. Vivemos uma era de memória selectiva e de acolhimento por conveniência.
Em Portugal, há quem então não tenha percebido que parte dos Portugueses e seus descendentes a viver em França tenha vibrado com a equipa de Mbappé, Pogba e companhia. Há quem considere que devem lealdade exclusiva à Pátria das origens.
Há quem não entenda que se possa ter uma dupla pertença e ser apoiante de duas seleções. Por seu turno, em França, mas também no Luxemburgo e em muitos outros países, há quem veja com maus olhos os Portugueses e Lusodescendentes que apoiam a Seleção das Quinas. Lá como cá, é grande a tentação de impor uma identidade por decreto e sentimentos de pertença por contumácia.
Tais incompreensões espoletam rivalidades latentes. Muitos descendentes de e/imigrantes conhecem bem essa dupla pressão dos países de origem e de residência.
Elevados aos píncaros quando encaixam na narrativa nacional, não deixam de sentir na pele o estigma duma existência fragmentada e/ou de raízes desvalorizadas. Basta estar atento aos discursos mediáticos a geometria variável em torno dos e(i)migrantes e respectivas descendências.
Na Venezuela, estão hoje registados cerca de 179 000 Portugueses e Lusodescendentes nos postos consulares, tendo o Censos de 2011 identificado apenas 37 000 emigrantes lusos. A maioria nasceu já na América do Sul.
Alguns estudos fazem mesmo referência a meio milhão de pessoas, se tivermos em conta a totalidade das segundas e terceiras gerações. Em tempos de crise, para além das dificílimas condições de vida que agora enfrenta, a comunidade portuguesa encontra-se no âmago de um confronto diplomático de escala planetária.
Ao acusar Portugal, Espanha e Alemanha de colocarem em risco as vidas dos seus compatriotas – devido ao seu beneplácito a uma intervenção internacional na Venezuela – o regime de Nicolás Maduro mais não faz do que tomar por reféns as descendências de um conjunto de nações europeias.
Num país em que um dos 23 Estados tem inclusivamente por nome Portuguesa, muitos dos que por lá nasceram e/ou construíram suas vidas vêem-se agora na contingência de tudo perder.
Desde 2015, cerca de dez mil Portugueses e Lusodescendentes regressaram ou emigraram para o país das origens – um êxodo com maior incidência na Região Autónoma da Madeira –, enquanto quatro a cinco mil elegeram a Espanha ou países da América Latina como novo destino.
A maioria, porém, quer permanecer naquele que é o seu país. Embora Portugal tenha já evocado um eventual envio de tropas, oferecido 18 000 empregos e lembrado a existência de uma rede de apoio médico específica – que, entretanto, já se queixou de não ter, ela própria, apoios por parte de Lisboa –, todos têm consciência que esta nação à beira-mar plantada dispõe de parcos recursos.
É bom que em Portugal não olhemos para os emigrantes e lusodescendentes apenas quando são casos de sucesso, naquilo que não raramente constitui um exercício colectivo de autocontemplação narcísica. Temos um dever moral e histórico de estar atentos e dar respostas eficazes, sem laivos de condescendência, àqueles que um dia partiram por não terem cá condições objectivas para uma vida com qualidade.
Autor: Manuel Antunes da Cunha