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Democracia ucraniana versus imperialismo russo

Santo Tomás de Aquino disse que a falta de oposição ao erro corresponde à sua aceitação tácita. Dado que concordo, em absoluto, com este pensamento, sinto-me na obrigação moral de defender a verdade também em contexto de Guerra da Ucrânia, onde o erro e a mentira estão a assumir uma dimensão nunca vista nos tempos mais recentes da história contemporânea. E porque amo a verdade e a democracia, e porque fundo os meus juízos em critérios da máxima honestidade intelectual, quero expressar a minha firme oposição à retórica perversa invocada por Putin para invadir a Ucrânia.

Apesar de uma aparatosa e bem montada encenação da mentira, só a cúpula militar do Kremlin, os plutocratas, a extrema-direita russa e as camadas populares culturalmente mais desfavorecidas é que acreditam em Putin. De facto, estes setores poderão ainda acreditar que Putin está a libertar a Ucrânia de uma nova geração de nazis; mas o mundo sabe que ele está a invadir a Ucrânia, tendo em vista a sua ocupação permanente, a sua retirada do seio das nações civilizadas e a sua integração no território russo. Esta é que é verdade! E enquanto mente, massacra um povo e ameaça o mundo com o terrorismo nuclear.

E se é imperdoável o erro histórico de ter invadido um país livre e independente, também é imperdoável o chorrilho de mentiras que tem propalado no âmbito de uma agressão político-militar que lembra o Anschluss nazi (anexação da Áustria em 1938 por Hitler). Comparando o que é comparável, a ideologia de Putin é decalcada da de Hitler, que também invadiu a Áustria com base num pangermanismo que advogava a tese de uma nação com uma só língua e uma só etnia. Serão precisas mais evidências?

Que não restem dúvidas: Putin é um feroz inimigo do extraordinário e heroico povo da Ucrânia, é um grande perigo para a segurança da Europa e é o principal responsável pelo comprometimento do futuro da própria Rússia. Putin até pode entrar em Kiev, mas nunca vencerá o sentimento de justiça, liberdade e amor pátrio que reside no coração de dezenas de milhões de ucranianos. Assim sendo, jamais a Ucrânia será pertença do império russo. Mas Putin sabe que um fracasso na Ucrânia lhe pode custar a cabeça, por isso, quer ganhar a guerra de qualquer maneira, nem que para tanto tenha de deitar mão da destruição generalizada até atingir os seus fins inqualificáveis. Inqualificáveis e cobardes, porque já enviou unidades de mercenários Wagner e forças especiais chechenas para matar Zelensky, as quais, até ao momento, têm sido eliminadas, felizmente. Putin quer matar Zelensky, porque ele é não só a voz da verdade, da justiça e da liberdade, como também o símbolo do próprio caráter nacional ucraniano. Sim, Putin também quer minar a moral do povo ucraniano com a morte do seu presidente; e tanto quer, que anda à procura de traidores para o matar, como outrora os imperadores romanos andaram à procura de traidores para matar Viriato e Sertório.

Putin, como Átila ou Gengis Kahn, acha-se no direito de conquistar a Ucrânia pela força das armas. Esta é que é a verdade, e a verdade, que eu saiba, só tem um rosto e uma missão. Como ensina S. João Paulo II, a verdade, juntamente com a justiça, o amor e a liberdade, é o pilar onde assenta o supremo edifício da paz. Ora, Putin mente com quantos dentes tem na boca, na feliz expressão do nosso povo, quando chama drogados e neonazis aos dirigentes ucranianos; quando diz que não ataca alvos civis como escolas, hospitais, lojas de comércio, infantários, igrejas, recursos energéticos e bairros residenciais; quando afirma que a Ucrânia praticou genocídio…

Putin mente, porque não ama a verdade, porque a verdade, na sua essência, é democrática. Todos os ditadores mentem, e em cima da mentira assentam o seu poder totalitário e, para que o mesmo não seja denunciado, tratam de impor o pensamento único à parte subjugada pela força das armas. Se assim não fosse, o Exército Vermelho não teria esmagado revoltas na Alemanha Oriental (1953), em Budapeste (1956) e Praga (1968). Agora, Putin quer fazer o mesmo em Kiev. Só que o seu exército já não se chama Exército Vermelho, mas Exército Negro!


Autor: Fernando Pinheiro
DM

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6 março 2022