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Dei-te um louvor rasgado

Há alguns dias tive o prazer de me cruzar com uma amiga que já não via há muitos anos. Infelizmente foi por pouquíssimo tempo, já que a chamaram para uma consulta. Ainda assim gostei de a rever. Sempre com o mesmo ar doce e disponível. Também aguardava a sua vez um colega, que lhe referiu algo, que muito me sensibilizou tendo dado o mote para esta narrativa. “Dei-te um louvor rasgado”. E olhando para mim acrescentou: “Quando há alguém que sobressai, tenho o hábito de o fazer. Nunca fiz uma queixa de um colega, referiu com algum orgulho”.

Entretanto, chegou igualmente a sua vez e a conversa terminou por aqui, com muita pena minha.Segui o meu caminho, dirigindo-me para a minha sessão de fisioterapia, a pensar que bom que era valorizar o trabalho de alguém. A minha amiga deveria ter ficado feliz. Contudo, pelo seu ar surpreendido pareceu-me que desconhecia o facto. Na verdade, há pessoas muito boas, que passam por nós discretamente, fazem o bem, sem se evidenciarem ou darem conhecimento. Que bom que assim seja.

Sem protagonismo. Tem um valor imenso. Recordei uma frase de S.Josemaria: “Só serás bom, se souberes ver as coisas boas e as virtudes dos outros. Quando tiveres de corrigir, fá-lo com caridade, no momento oportuno, sem humilhar…” Interiormente pensei quão difícil é julgar ou avaliar o próximo, particularmente numa época em que abundam as “fake news”. É preciso possuir uma enorme sensibilidade, boa formação, valores, capacidade de observação, de justiça, de critérios éticos, estar atento às questões morais, às diferenças culturais, de raça, não sendo de todo uma tarefa fácil.

Como julgar com princípios e valores, que sejam aceites por todos, independentemente de todas as diferenças que possam eventualmente existir, no sentido de não se tecer um juízo errado? Quantas vezes, não nos teremos enganado ao longo da história, ou mesmo da nossa vida ao tecer um juízo de valor? O que parecia, afinal, não era, tínhamo-nos enganado redondamente! O melhor mesmo é evitar julgar o próximo, dando o benefício da dúvida, a presunção da inocência. “Até se provar que é culpado, está inocente”!

Ainda assim, há enganos. Nem tudo o que parece é, vindo-se mais tarde, algumas vezes, a ter conhecimento de que o culpado afinal estava inocente. Recordo S. Mateus, VII: 1-2: “Não julgueis, pois, para não serdes julgados, porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados, e com a medida que medirdes, vos medirão também a vós”.

Podemos compartilhar os mesmos gostos, as mesmas opiniões, contudo, os acontecimentos afetam-nos de forma diferente. Quantas vezes, não utilizamos os nossos sentimentos, as nossas referências, enquanto medida para julgar os outros? Quando se trata da complexidade do comportamento do ser humano, é muito complicado. A ciência, a moral, a ética, a política versus o bem comum em toda a sua plenitude ao serviço do ser humano. Descartes, comentou que embora a faculdade do julgamento tenha sido feita por Deus, os seres humanos, frequentemente cometem erros. O erro humano constitui apenas um defeito que vem de um ser imperfeito.

Segundo Descartes, que se observou atentamente a si próprio, no sentido de determinar a natureza do ser humano, tendo percebido que dependia de duas causas simultâneas; a faculdade do conhecimento que se encontrava dentro dele, e a faculdade de escolha ou liberdade da vontade. Ou seja, o erro humano depende do intelecto e da vontade, excluindo de imediato o intelecto como a fonte do erro do ser humano, uma vez que, apenas o capacita para entender as ideias que são sujeitas a possível um julgamento.

Posto isto, segundo Descartes, a fonte do erro humano deve ser atribuída à vontade. Como a vontade ou a liberdade de escolha foi dada por Deus, Descartes acredita que ela seja suficientemente extensa e perfeita, constituindo simplesmente, a nossa capacidade em optar por fazer ou não fazer algo, (afirmar ou negar, perseguir ou evitar).

O erro humano surge assim quando as pessoas tentam julgar coisas que se encontram para além do escopo do ser humano. Acrescenta ainda que se a perceção, é de algum modo duvidosa e nublosa, em vez de clara e distinta, existe o risco de erro. Logo, o julgamento deve ser evitado porque se afasta da verdade, com uma perceção confusa sendo por isso necessário uma cautela enorme.

Quanto mais segura a pessoa se encontra, porque entende as razões da verdade e da bondade, ou ainda devido a uma disposição divina, devidamente produzida nos seus pensamentos mais íntimos, maior é a probabilidade de evitar cometer um erro. Deus não deve, de todo, ser culpado pelo erro humano, uma vez que não é culpa de Deus, que os seres humanos procurem julgar factos que se encontrem para além do seu entendimento.

Constitui um dever do ser humano evitar cometer um erro, sendo cauteloso nos seus julgamentos, julgando unicamente os casos em que existe uma certeza. “Os sentidos enganam, de vez em quando, e é prudente nunca confiar totalmente naqueles que nos enganaram uma única vez”.

Termino este artigo, concebido durante uma sessão de fisioterapia com origem numa inflamação dos tendões, devido, talvez a algum esforço, uma queda, uma posição incorreta no computador… O meu intelecto diz que desconhece a origem. A vontade refere que o melhor mesmo é recuperar. Logo, estou a fazer o possível! Santa Maria, rainha da esperança, intercede para que todos os julgamentos sejam realizados em prol do bem comum do ser humano e da sociedade.


Autor: Maria Helena Paes
DM

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2 agosto 2019